Editorial - Luta contra a corrupção
O Foro mundial para a luta contra a corrupção, instalado quarta-feira no Departamento de Estado dos EUA, na presença de representantes de 89 países, reveste-se da mais alta importância. Apesar de ter sido convocada, segundo alguns críticos, já para dar suporte à indicação do atual vice-presidente norte-americano, Al Gore, como candidato à sucessão de Bill Clinton, a conferência internacional permite o debate e a reflexão sobre os tentáculos da corrupção e suas terríveis consequências nos organismos judiciais e de segurança, e ainda a definição objetiva dos meios para combater este problema mundial.
A corrupção não é o produto natural do capitalismo, mas sim sua perversão, afirmou antes de iniciar a conferência a secretária de Estado, Madeleine Albright. Devemos combatê-la tanto na demanda como na oferta, continuou, destacando a necessidade de pagar bons salários aos funcionários que podem ser confrontados com tentativas de suborno. Em contrapartida, disse Albright, o funcionário deve compreender que toda violação provocará a perda de seu emprego e, eventualmente, motivará a prisão do envolvido. A reunião pretende, segundo um de seus conselheiros, Leon Fuerth, concentrar-se na luta contra a corrupção no mundo nos organismos públicos e fazer intercâmbios de experiências nesta área.
Independente do motivo, a verdade é que o tema é relevante e, num mundo em que as fronteiras se tornam cada vez mais tênues, é certo que só um esforço real e global - para usar um termo em voga -, pode propiciar condições a que se enfrente de fato este verdadeiro câncer social que é a corrupção. Como assinalou o vice-presidente Al Gore no pronunciamento de abertura do encontro, a corrupção em um país pode ter efeitos no mundo inteiro. E a informação - continuou - é o inimigo natural da corrupção, aproveitando o ensejo para apelar aos governos no sentido da defesa da liberdade de imprensa, considerando, corretamente, que este é um ponto fundamental para o sucesso nesta dura batalha.
De fato, a corrupção desponta como um dos mais sérios desafios colocados ante a chamada sociedade civilizada. Embora ela viceje com mais facilidade sob regimes totalitários, é certo que está presente também nas democracias. Apesar de não ser um produto natural do capitalismo, como destacou a secretária Madeleine Albright, a corrupção também decorre muitas vezes de uma série de falhas estruturais do capitalismo, o que torna a idéia em si uma alternativa para tantas injustiças sociais que fazem parte da realidade humana por todo o planeta. Isto significa também que a eventual luta contra a corrupção implica na necessidade de alterações importantes nos organismos públicos, em termos mundiais, e isso inclui um imenso trabalho voltado para a mudança de mentalidade, especialmente nos países mais pobres.
É um verdadeiro trabalho de Hércules, um dos muitos desafios com que a sociedade organizada se defronta neste final de milênio, até porque a corrupção, ao lado de tantas outras mazelas e crimes, se encontra profundamente entranhada na vida da própria humanidade. E não será apenas com discursos ou mesmo com boas intenções que se conseguirá sucesso nesta empreitada. É preciso muito mais, é necessário uma vontade política mundial, uma ação conjunta de depuração e de valorização da honestidade e da seriedade, a partir dos órgãos públicos, em todos os continentes. Reclama-se para o sucesso desse tipo de empreitada um esforço imenso. Vale a pena, sem dúvida, até porque a vitória nesta luta é uma das poucas alternativas para a civilização superar um de seus piores inimigos.





