Lições da Argentina
Pode o sr. Carlos Menem repetir quanto queira que não foi derrotado por não ter apoiado candidato nenhum. A verdade é outra. A vitória do líder da oposição, Fernando de la Rúa, nas eleições presidenciais realizadas domingo na Argentina reflete a desilusão com a recessão e com uma década de governo de Carlos Menem. Esta foi a quarta eleição presidencial no país desde o final da ditadura militar, que durou de 1976 a 1983, sendo que a vitória esmagadora de De la Rúa é uma das maiores derrotas do partido peronista. Uma década atrás, eleito pela primeira vez, Carlos Menem herdou uma economia confusa. Ele ajudou a revivê-la impulsionando reformas, realizando privatizações e removendo barreiras para o investimento externo. Mas, neste momento, no final de seu segundo mandato, a economia argentina está novamente em recessão. As taxas de desemprego estão próximas dos 14% e a corrupção e o crime estão em crescimento. Só isto seria o suficiente para derrotar um governo em uma democracia.
Ademais, o eleitor se cansa também de seus dirigentes. O maior exemplo disto foi visto na Grã-Bretanha, após a II Guerra Mundial. Winston Churchill assumiu o poder no começo da guerra, época em que o país se defrontava com um inimigo poderoso e assustador, e conduziu o país a uma vitória notável. No final da guerra, consagrado pela conquista, acabou derrotado nas urnas e afastado do poder. O povo britânico havia se cansado da guerra e do líder que o conduziu à vitória. O eleitorado argentino, seguramente, também se cansou de Menem, apesar de todos os seus feitos. E abriu o caminho para a oposição, buscando ali alternativas novas para o futuro.
As eleições antecipam certas possibilidades de mudança, sobretudo em questões como a pobreza, o desemprego e a insegurança. O próprio De la Rúa concorda com isto, lembrando os problemas econômicos que levaram o país à atual e elevada taxa de desemprego, já tendo garantido que vai assumir o cargo com políticas econômicas que protegerão os pobres. Igualmente, vários bispos argentinos, analisando o resultado do pleito, consideram o mesmo, assinalando que as causas principais da derrota do partido de Menem foram a recessão e a corrupção, exigindo das autoridades eleitas ‘excelência moral’ em suas gestões.
Recessão e corrupção formam, sem dúvida, uma dupla de peso a motivar o eleitor e a mostrar, principalmente, seu desagrado. A Argentina viveu uma tremenda mudança sob Carlos Menem. Não se pode esquecer a época em que o atual (e derrotado) presidente foi eleito. A situação era tão dramática que até a data da posse foi antecipada porque o país estava vivendo à beira de uma catástrofe. Menem efetivamente alterou a questão, modificou o panorama, restaurou a economia. Foi tão bem que conseguiu primeiro uma extensão do próprio mandato e depois uma reeleição.
Talvez tenha sido este o problema. De repente, o líder capaz de tirar o país de uma situação dramática se sentiu como um messias. E passou a agir como tal. Paralelamente, deve ter perdido as proporções, na medida em que, por um processo muito comum – o de se considerar o único capaz de representar as necessidades e interesses do povo –, pode ter considerado que a corrupção ou o descontentamento dos mais sofridos não o afetariam. Como ele não foi candidato a um novo mandato, pode manter a ilusão de que, de fato, a derrota não o afeta. Mas é certo que o descaso com os anseios dos mais carentes e a falta de cautela na luta contra a corrupção minaram a base de seu prestígio. Uma lição para ele e para os que, como Menem (entre os quais pode até se situar o atual bipresidente brasileiro), passam a se considerar maiores e mais importantes que seu país e seu povo.

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