Liberdade de imprensa
Oitenta e seis jornalistas foram assassinados em todo mundo em 1999, o segundo pior ano em registro da história, elevando o total dos últimos dez anos para 500, conforme a Federação Internacional dos Jornalistas (IFJ), com sede em Bruxelas. ‘‘1999 foi um ano infame’’, disse o secretário-geral da IFJ, Aidan White. Na Iugoslávia, 24 jornalistas e trabalhadores da mídia foram mortos, incluindo 16 que estavam no prédio da Rádio e Televisão da Sérvia em Belgrado durante o bombardeio da Otan em abril. Três outros morreram quando a embaixada chinesa em Belgrado foi atacada. Em Serra Leoa, 10 jornalistas foram mortos na guerra civil. Na Colômbia, a violência causou a morte de seis outros. Também houve casos em Timor Leste e na Chechênia. ‘‘O perigo contra os jornalistas está maior do nunca’’, destacou White. Em 1994, a matança na Argélia, a guerra da Bósnia e o genocídio em Ruanda contribuíram para transformar o ano no pior de todos, com 115 mortes.
O jornalista não é uma pessoa diferente de qualquer outra, nem um profissional especial que mereça mais respeito que os outros. O que importa, porém, na revelação desta informação, é a percepção de que o assassinato de jornalistas reflete sempre o esforço visando eliminar aquele profissional que tenta mostrar ao mundo os abusos, desmandos e crimes de toda a espécie que são cometidos em toda parte. Matar jornalistas parece mais fácil do que evitar os crimes que são cometidos contra a humanidade. Na verdade, a questão fundamental é esta: os criminosos de todos os matizes, principalmente aqueles que por qualquer motivo se encontram em posições de poder, não têm qualquer escrúpulo em violentar a dignidade dos que se lhes antepõem. Mas não querem que seus inomináveis crimes sejam revelados. Então, matam precisamente aqueles que têm como função e missão narrar o que se passa.
Este ano que está terminando foi pródigo no Brasil em revelações sobre escândalos, fraudes, corrupção e abusos sem conta. A imprensa, de modo geral, abriu páginas (e espaço na TV, como no rádio) revelando roubos fantásticos do dinheiro público, incluindo aí alguns atos inacreditáveis cometidos por membros do Judiciário. Até agora, não se tem notícia sobre punição, prisão, retomada do dinheiro roubado do povo. Em 1999, como nos anos precedentes, a imprensa brasileira tem feito sua parte, divulgando informações sobre o assalto cometido contra o erário público por políticos de todos os níveis. Realiza agora o que tentou fazer durante a ditadura, época em que alguns profissionais da imprensa foram presos, torturados, exilados ou mortos. Felizmente, desde a redemocratização, não há mais registros desse tipo de violência.
Entretanto, não há motivos para júbilo. No Estado do Pará, a Justiça estabeleceu censura sobre órgão de imprensa, proibindo a divulgação de informações sobre atos ilícitos cometidos por um membro do Judiciário. Atitude que reflete apenas um clima que se está vivendo. Pois é certo que em muitos setores há manifestações, mais ou menos veladas, contra a liberdade de imprensa. Não poucos, inclusive algumas pessoas bem-intencionadas mas
mal informadas, reclamam medidas para ‘‘conter a onda de pornografia e permissividade’’, defendendo até uma ‘censura limitada’. Ora, não existe isto. É certo que a liberdade há de ser exercida com responsabilidade, havendo leis que garantam ressarcimentos e punições. Entretanto, estabelecer algum tipo de censura, por menor que pareça, abre as portas para um retorno indesejável a um passado que não deixou saudades. Temos de manter livre a imprensa para que continue a ser o fiscal de um povo que não pode mais ser roubado como tem sido até agora por alguns de seus governantes.

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