Editorial

Juros em alta
O aumento de 100% na taxa de juros brasileira, determinado pelo Banco Central para evitar fuga de dólares e defender o Plano Real, num momento em que a especulação internacional põe abaixo os mercados de todo o mundo, é absolutamente correto do ponto de vista técnico. Os organismos oficiais existem para tomar essas medidas quando elas se fazem necessárias, isto é, quando a moeda, a economia e o patrimônio nacional estão sob séria ameaça. O problema dessas medidas é o day after, suas consequências de curto, médio e longo prazos, em função do tempo em que vão estar em vigor.
Historiadores econômicos concordam que no final da década de 20, se o governo dos Estados Unidos tivesse os instrumentos que existem hoje em praticamente todos os países do mundo, o crash da Bolsa de Nova York em 1929 teria sido menos devastador e a recessão dos 10 anos seguintes menos cruel. Mas os governos precisam aplicar os remédios na combinação, no tempo e na dose certa.
A crise atual, que veio com a violenta queda da Bolsa de Hong Kong, não foi evitada pela fantástica alta dos juros, de 300%, na ex-colônia britânica. A dose, embora exagerada, não teve efeito porque teria de ser combinada com o desengessamento do câmbio local. E houve atraso na adoção da medida, que se tivesse sido tomada antes talvez não precisasse ser tão forte. Nada disto quer dizer que a alta dos juros no Brasil, de 100%, não terá efeito algum. Hong Kong vive uma situação peculiar: foi recentemente incorporada à China comunista mantendo o sistema econômico capitalista. É o mesmo que pôr os especuladores dentro de um caldeirão. O ataque a sua moeda foi gravíssimo, reclamando medidas muito duras.
No caso brasileiro, a alta dos juros apenas os remete aos níveis praticados em 95, no auge da crise mexicana, quando o real, como praticamente todo o sistema econômico da América Latina, foi abalado. Para um país que viveu por muito tempo sob juros exorbitantes, a alta de hoje não chega a ser assustadora. E há outra diferença: aqui, a crise é de fuga de capitais e não de ataque direto à moeda. A defasagem cambial é pequena e vem sendo gradualmente reduzida. Com juros bem mais altos - os maiores do mundo, neste momento -, a tendência é de a fuga de dólares desta semana se reverter. A dúvida é por quanto tempo será necessário manter a alta, pois ela encarece o custo da dívida pública e dos empréstimos ao setor produtivo.
A população precisa ficar atenta à evolução dos fatos, ciente de que a alta dos juros pode provocar alta de preços. No entanto, se mantiver o comportamento dos últimos três anos, fazendo levantamento de preços e deixando nas prateleiras o que estiver acima do razoável, a inflação subirá mas logo cairá. Não é hora, por exemplo, de fazer compras a prazo. Se, antes, algumas empresas já praticavam juros elevados, é certo que as taxas vão subir ainda mais. Compras, agora, devem ser feitas à vista, após meticulosa pesquisa de preços. É trabalhoso, mas seria pior se o Banco Central não fizesse nada.

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