A forte redução dos juros determinada pelo Banco Central chegou a surpreender mesmo os analistas e empresários mais otimistas. Neste mesmo espaço, no começo do mês passado, este jornal defendeu a redução acentuada dos juros, em golpes que se dariam por etapas, nos meses seguintes, até chegarmos em maio/junho ao patamar de juros de setembro do ano passado, em função da normalização das economias asiáticas, que já se fazia sentir desde janeiro. A decisão de baixar os juros básicos para 28% ao ano foi adotada agora justamente porque a crise na Ásia e seus efeitos no Brasil ‘estão relativamente afastados’, informam fontes do Banco Central.
Há, porém, dois motivos agora mais fortes e fartamente noticiados: a elevada taxa de desemprego no País, que atingiu 7,25% da População Economicamente Ativa em janeiro, segundo pesquisa do IBGE publicada pela imprensa ontem, e um espantoso estouro das contas públicas de 1997, divulgado há mais dias. Tudo consequência da forte pancada dos juros na economia, para recaptar dólares em fuga do País em outubro e novembro do ano passado.
Os juros altos são, como o próprio presidente da República qualificou anteontem, ‘‘um tiro no p钒. Tiro que estamos dando todos os dias, há quase 150 dias, no nosso pé. E o presidente, o Governo, o Congresso e os governadores e prefeitos são co-responsáveis por isso. São eles os gestores das contas públicas e são eles os representantes que o povo escolheu para fazer as reformas que dariam sustentação ao Plano Real e, se já tivessem sido feitas, dispensariam juros tão demolidores como os que estamos tendo - na verdade, não só agora mas desde 1993, embora numa escala menos apocalíptica.
A redução efetuada ainda nos deixa longe do normal para uma economia recém-saída da hiperinflação. Nessas condições, deveríamos estar em setembro do ano passado com juros de pouco mais de 10% ao ano e não de 20%. A explicação oficial é que não tínhamos as reformas. É uma meia-verdade, pois não tínhamos também o superávit necessário na balança comercial para financiar, mesmo parcialmente, o déficit interno e os pagamentos da dívida externa. Ao contrário, passamos a ter déficits comerciais enormes em função de importações descontroladas e exportações deprimidas pela taxa de câmbio supervalorizada.
O corte não recoloca os juros sequer no nível de outubro. É importante, mas o novo patamar ainda é desastroso para a economia. União, estados e municípios precisam gerenciar de forma mais competente o dinheiro público. Não é possível continuar gastando o que não têm.
Logo chegará o dia em que o Brasil não poderá mais praticar os juros que a incompetência do poder público impõe à economia. E aí, como ficaremos se as despesas continuarem maiores do que as receitas? Fatalmente iremos de novo para a hiperinflação. A cada dia que passa mais o Brasil está sendo obrigado a praticar taxas de juros civilizadas, para não haver uma quebradeira generalizada no setor privado. Trata-se de um imperativo diante das necessidades internas, que reclamam investimentos produtivos para retomarmos o crescimento econômico.
É inegável que o plano Real foi importante não só para derrubar a inflação, como também para resgatar uma boa parcela da população que havia naufragado na miséria. Mas ainda há uma faixa imensa que reclama melhorias, incluindo as camadas baixas e médias da classe média, que diante dos problemas que têm pela frente vão se aproximando cada vez mais da pobreza.
O Brasil precisa mudar, agora, seu foco. Não pode ficar permanentemente na dependência do capital externo e do smart money que vem junto com ele só para engordar com os juros altos. É fundamental que se criem, agora que já temos duas reformas encaminhadas, as condições capazes de estimular o investimento interno, única forma segura e garantida de crescimento econômico. E que é, também, pelo exemplo, a melhor maneira de atrair o capital externo.

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