Editorial - Jornalistas assassinados
Balanço divulgado pelas organizações de defesa da liberdade de imprensa Jornalistas Sem Fronteiras (JSF) e Comitê de Proteção de Jornalistas (CPJ) revelam que, durante o ano de 1997, um total de 26 jornalistas foram assassinados em 14 países, vítimas de represálias ou atentados terroristas. Em 1996, a JSF, com sede em Paris, calculou em 28 o número de jornalistas assassinados, número que pelo CPJ, em Nova York, chegou a 27. Segundo os dados, no ano passado sete jornalistas foram assassinados na Índia, quatro na Colômbia, três no México e dois no Camboja. Jornalistas também foram assassinados no Brasil, Argentina, Guatemala, Indonésia, Irã, Paquistão, Filipinas, Ruanda, Serra Leoa e Ucrânia. Com exceção de três casos, os supostos autores destes crimes não foram detidos ou identificados oficialmente, precisaram em comunicado conjunto as duas organizações, que pedem aos governos que realizem investigações exaustivas quanto aos casos.
Assassinar um jornalista para garantir o silêncio é uma prática muito corrente em todo o planeta, afirmam as duas organizações, enfatizando que se estes crimes permanecerem impunes, as garantias constitucionais que protegem a liberdade de imprensa não servirão para nada. E este é, sem dúvida, o foco da questão. Os assassinatos cometidos contra jornalistas representam, basicamente, um trabalho destinado a calar vozes que se levantam contra os abusos e a opressão. O jornalista assassinado é, quase sempre, aquele que tenta alertar sobre ações que colocam em risco a vida e a liberdade das pessoas e dos povos. Em alguns casos, a ação contra estes profissionais parte do crime organizado, como na Colômbia, onde 4 jornalistas foram mortos no ano passado, chegando a 43 o total das vítimas em 10 anos, a maioria morta pelos traficantes de droga. Já na Índia, a morte de sete profissionais da imprensa reflete um recrudescimento da violência política contra os jornalistas e fotógrafos locais, afirmam ambas organizações. Cinco membros de uma equipe de televisão morreram na explosão de uma bomba colocada por um grupo terrorista em Hyderabad (sul). Dois jornalistas muçulmanos da Cachemira indiana (noroeste), que colaboravam com a rádio-televisão estatal, foram assassinados, o que eleva para oito o número de jornalistas mortos neste Estado, onde a guerrilha muçulmana separatista deixou 20.000 vítimas fatais desde 1989.
Argélia e Rússia foram dois dos destinos mais perigosos para os jornalistas em 1996, mas nenhum profissional perdeu a vida no ano passado nestes dois países, um fato sem precedentes desde 1993. Esta informação, porém, não deve ser interpretada como um sinal de maior respeito à liberdade de imprensa, segundo as entidades que divulgam estes números. Existem menos vítimas porque inúmeros jornalistas entraram para a clandestinidade, abandonaram o País ou mudaram de profissão. Nos últimos cinco anos, mais de sessenta jornalistas foram mortos na Argélia por causa do trabalho que desempenharam na denúncia das chacinas que estão ocorrendo quase que diariamente naquele País.
Assassinados por grupos criminosos, por fanáticos religiosos ou por policiais em governos totalitários, os jornalistas mortos são indicativos de uma realidade que precisa ser encarada. Cada profissional de imprensa que é morto não é apenas uma voz que se cala na denúncia dos crimes, no alerta contra os abusos, na defesa dos direitos humanos. Cada assassinato representa ameaça mais ampla na medida em que provoca o terror e reduz a proteção que uma imprensa livre oferece à sociedade de modo geral. Lutar contra o assassinato de jornalistas é, basicamente, defender a própria liberdade humana.





