Considerar que as atitudes do governador de Minas, Itamar Franco, de afrontar o governo federal, constituem uma reação à frustração do ex-presidente, que não pode concretizar o sonho de se candidatar à sucessão de Fernando Henrique Cardoso, é simplificar muito a questão. De fato, há de existir um componente de insatisfação natural, até porque o sr. Itamar Franco é humano. Não é difícil, ademais, entender o projeto do ex-presidente. Basta lembrar que ele atingiu a Presidência do modo mais improvável. Era o vice de Fernando Collor de Mello o que, naturalmente, o colocava como primeiro na linha de sucessão. Todavia, assim como ninguém imaginou o suicídio de Vargas, a renúncia de Jânio e a morte de Tancredo, eventos que acabaram dando aos vice-presidentes daquelas épocas o acesso à Presidência, também jamais se pensaria, antes da eclosão do escândalo que culminou com a queda de Collor, que o sr. Itamar Franco chegaria ao cargo.
Foi, porém, o que aconteceu, em um dos momentos mais delicados dos últimos tempos. Collor tinha sido o primeiro presidente eleito por voto direto no Brasil desde Jânio, 30 anos antes. Sua campanha foi tão estonteante que o vice era uma espécie de apêndice, necessário segundo a legislação, mas sem maior importância do ponto de vista da estratégia do próprio presidente eleito. E, de repente, ele foi chamado a ocupar o cargo, enfrentando as dificuldades de um momento terrivelmente complicado, com o descrédito que acompanhou aquele processo, os problemas todos de uma economia que caminhava de novo para a hiperinflação. Para muitos, se conseguisse sobreviver e levar o país às eleições seguintes, já seria um milagre. Todavia, Itamar Franco acabou conseguindo mais que isto. No último ano de mandato, lançou o plano de estabilização da economia, que mudou a situação nacional. O presidente não apenas se consagrou como conseguiu eleger seu candidato, o mentor do plano, seu ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso.
Itamar Franco sonhava voltar e suceder a FHC. Seria a consagração pessoal de um presidente que chegou lá por acaso e que teria tudo para se eleger. Mas houve a emenda da reeleição, FHC preferiu ser o candidato de si mesmo e para Itamar restou a consolação de tentar o governo de Minas. Claro, ele ainda pode sonhar em se candidatar em 2002, mas até lá vai ter de realizar um bom trabalho em Minas. E diante das dificuldades econômicas que encontrou - o que acontece com todos os governadores -, o ex-presidente certamente deve ter se sentido ainda mais frustrado.
Todavia, há algo mais. Até mesmo pelo fato de ter sido presidente, e também por ter sido quem lançou o Plano Real, Itamar Franco sabia das dificuldades dos governadores. Ademais, naturalmente, sabe também que muitos dos problemas que ele enfrenta, a exemplo de seus companheiros de governo nos Estados, decorrem da não-complementação do próprio plano de estabilização pelo Congresso. O Fundo de Estabilização da Economia, criado com outro nome mas com a mesa função na gestão de Itamar, deveria ter sido extinto há tempos. Teve de ser prorrogado e tira recursos dos Estados e dos municípios. Outras alterações, inclusive a reforma tributária, que poderiam mudar a situação para governos estaduais e prefeitos, também não se concretizaram. Itamar Franco pode estar errado na forma de agir, mas não no fundo.
E o governador de Minas, embora hoje quase isolado pelas inteligentes manobras do Planalto, tem pelo menos o mérito de haver colocado de novo em evidência a questão da própria Federação, que sem dúvida reclama alterações. Ainda que não seja por outro motivo, já seria o suficiente para considerar de modo menos agressivo as atitudes do sr. Itamar Franco em face de FHC.

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