Os governadores recém-empossados (menos, naturalmente, os reeleitos) enfrentam um problema comum, apenas diferente em relação ao tamanho: dívidas. Não se trata, apenas, de ter encontrado o caixa vazio, mas de receber como herança uma imensidão de débitos que, em muitos casos, incluem os salários do funcionalismo. Uma situação caótica que já começa a produzir resultados, inclusive o anúncio de muitos relativo à impossibilidade de pagar as dívidas. Moratória já é uma palavra mais que repetida e embora o governo federal tenha anunciado que não pretende refinanciar as dívidas dos Estados, ameaçando inclusive reter os recursos do Fundo de Participação dos Estados para saldar parcelas que porventura não sejam pagas, a realidade é que, no fim, restarão poucas alternativas e deverá haver renegociações. Ou o caos.
O fato que mais chama a atenção é que nesta polêmica não se ouve falar sobre a eventual responsabilização dos que encerraram os mandatos e deixaram esta triste herança. Sem dúvida, não é uma situação anormal, infelizmente. A História política brasileira parece se repetir indefinidamente: assim como os governadores, prefeitos e até o presidente, quando assumem, encontram caixas vazios, dívidas em atraso e enfrentam a necessidade de buscar recursos para pôr a casa em ordem. No passado, havia prefeitos que utilizavam como norma de ação o seguinte sistema: usavam os dois primeiros anos do mandato para pagar as dívidas que receberam e os dois últimos para fazer dívidas que iriam deixar aos seus sucessores. Como, porém, o buraco ia ficando cada vez maior, muitos acabaram não podendo pagar tudo e apenas acrescentavam seus próprios débitos.
Esta mentalidade está, sem dúvida, no cerne dos mais sérios problemas do Brasil. O imenso déficit público, a causa principal do descalabro econômico em que o País mergulhou, é resultante desta irresponsável forma de agir de titulares do Executivo. Gastam sem ter, deixam dívidas com a maior desfaçatez, certos de que não serão sequer responsabilizados por má administração. As consequências disto estão presentes na vida da população, se refletem nas dificuldades cada vez maiores que o povo enfrenta. E, diante da histórica falta de ação para punir os que esgotam os fundos públicos e deixam imensos débitos para os sucessores, o resultado é uma situação cada vez pior. Pode o governo federal insistir, como o faz agora, com a ameaça de que não vai tolerar atrasos no pagamento das dívidas, ou garantir que não vai renegociar. Isto, no fim, não vai resolver nada. E, seguramente, haverá composições políticas, aproximações, negociações, troca de favores, até que tudo se resolva. Para os governadores, claro.
A possibilidade de reeleição pode ter, talvez, levado alguns chefes de Executivo a ter mais cuidado. Mas, naturalmente, uma vez definida a situação, os que não foram reeleitos devem ter se sentido tranquilos para deixar dívidas sem conta aos sucessores. Talvez tenham de ouvir algumas críticas, por parte dos sucessores, mas isto também passa, na vida política, e seguramente em breve vão estar pedindo votos e voltando a ocupar cargos públicos, sem qualquer tipo de punição. Este é, sem dúvida, o grande problema, a questão básica na vida pública brasileira - a impunidade. Governadores, assim como prefeitos e o próprio presidente, incompetentes ou desonestos (ou ambos) não precisam se preocupar com nada. Passam, deixam dívidas, afundam prefeituras, Estados ou até o País, e simplesmente nada acontece. Gastam o que não existe, com irresponsabilidade que até pode ser considerada criminosa, cientes de que não terão que pagar nada. O povo, no fim, é quem paga todas as contas.

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