Editorial - Investigação no Banco Central
As denúncias relativas ao favorecimento de bancos, às vésperas da desvalorização do real, com a venda de dólares pelo Banco Central em valores inferiores aos do mercado, não constituem surpresa neste país em que o tráfico de informações sigilosas, ao lado da impunidade, constituem algumas das tristes tradições nacionais. No caso específico das desvalorizações da moeda, a divulgação de comentários posteriores sobre vantagens obtidas por quem possuía informações a respeito é uma constante. O povo sabe que houve quem se beneficiou da medida, os boatos correm soltos. Todavia, nunca acontece nada de efetivo, ninguém é denunciado ou punido e como existem sempre novos fatos (e normalmente outros escândalos) a questão cai no esquecimento. Como, desde que o real foi implantado, não tinha havido nenhuma desvalorização grande da moeda, a questão também não estava em foco. Nos últimos tempos, houve uma certa pressão contra o real, determinados setores reclamavam que a cotação face ao dólar era falha e que isto prejudicava a produção, principalmente. Mas o governo manteve a moeda numa certa paridade, realizava apenas pequenas desvalorizações e insistia em que não haveria nenhuma máxi. Então, quando afinal a mudança aconteceu, além de todos os percalços, surgiu também esta nova denúncia, provocando agora investigações tanto do Legislativo quanto das autoridades federais.
Não se discute, em realidade, a desvalorização da moeda. O problema, porém, é o da vantagem que determinadas pessoas ou grupos tiveram ou porque contavam com informações privilegiadas, que jamais deveriam ter vazado, ou porque foram beneficiados com certas benesses do Banco Central, que é o que parece ter acontecido em relação aos bancos Marka e FonteCindam. Não há justificativa para qualquer destas hipóteses. Divulgar informações sigilosas é um crime, permitir que alguém se beneficie dela um absurdo. Paralelamente, facilitar as coisas para alguma entidade com a venda de dólares por valores inferiores aos do mercado, às vésperas de uma desvalorização, é também um crime contra a coletividade, além de constituir um abuso de confiança. Não se trata apenas do prejuízo que o País teve, do preço que a população paga, mas do abuso de confiança, do privilégio dado a alguns, o que está fora dos próprios princípios da democracia.
O que se tem, diante das investigações feitas até agora, não são mais rumores ou boatos, tão comuns quando há desvalorizações da moeda. Estão aflorando fatos que não podem ser escondidos. Pretender, como algumas autoridades já deixaram escapar, que esta investigação é danosa para a imagem do BC e, por conseguinte, do País, é falso e hipócrita. Pior do que isto seria permitir a impunidade ou aceitar que alguns continuem e se locupletar com vantagens inaceitáveis para qualquer padrão de moralidade e civilidade públicas. A plena investigação dos fatos, a revelação total sobre o que se fez, a apuração de responsabilidades e, principalmente, a punição dos responsáveis, constituem imperativos dos quais não se pode escapar.
Se, na sequência das investigações, forem apuradas responsabilidades mesmo nos altos escalões do BC ou do próprio governo federal, deve haver a punição exemplar. A queda de um ou de todos os dirigentes de um banco central não há de ser tão prejudicial para um país quanto a manutenção de pessoas suspeitas de ações nefastas ou ilegítimas. A restauração da moralidade, com a punição tanto dos que se beneficiaram como dos que permitiram isto é fundamental para a manutenção da credibilidade que o Banco Central e o Governo Federal precisam ter junto aos brasileiros e ao mundo.





