Editorial - Investigação necessária
Investigação necessária
As investigações em torno das denúncias relativas ao desvio de dinheiro público em autarquias londrinenses (Comurb e Ama) atingiram um patamar novo com a confissão do ex-diretor-administrativo-financeiro da Companhia Municipal de Urbanização de Londrina, Eduardo Alonso, que afirmou à CEI da Câmara de Vereadores ter recebido parte do valor desviado dos cofres públicos municipais. A partir deste fato surge uma realidade mais clara, na medida em que não se está mais no terreno da denúncia, da investigação, mas diante de uma confissão, uma grave confissão. O fato de Alonso haver denunciado outras pessoas como participantes do ilícito pode ser considerado como natural, inclusive porque dificilmente seria possível a alguém agir individualmente num caso de proporções milionárias como este. A conclusão é a de que, como aliás se supunha desde que surgiram as primeiras denúncias, uma verdadeira quadrilha vinha agindo (e o denunciante sustenta que ela continua a operar) na Comurb, desviando dinheiro em benefício próprio.
A questão pode parecer de interesse mais local, envolvendo autarquias ligadas à Prefeitura de Londrina. Todavia, é imperioso observar que não existe corrupção menor, ilegalidade inferior, ainda mais no que diz respeito ao dinheiro público. Ademais, trata-se da segunda maior cidade do Paraná, tendo na Prefeitura um político de prestígio estadual, marido da atual vice- governadora, pai de um deputado. E o ex-diretor da Comurb que, nunca é demais repetir, confessou ter partilhado o produto do desvio envolve em suas denúncias muitos antigos e atuais participantes da administração pública.
Sabe-se perfeitamente que quando uma pessoa está sob suspeita, caso de Eduardo Alonso um dos principais, senão o principal executor das ações de desvios dos recursos públicos , pode fazer denúncias contra outras pessoas. Igualmente, é reconhecido que não se deve fazer prejulgamentos diante disto. Mais ainda, conforme inclusive o que está previsto em lei, quem acusa deve provar a denúncia. Entretanto, há a considerar também que as investigações já feitas deixam claras evidências de que muita coisa ilícita foi feita e que muito dinheiro do povo foi desviado, naquele que certamente já é o maior caso de corrupção da história de Londrina. Alonso confessou ter participado da partilha. Existem a partir daí questões muito sérias, que reclamam a mais ampla investigação, o mais completo esclarecimento.
A partir deste estágio, principalmente da confissão pública do ex-diretor da Comurb, não há mais como deixar de lado o assunto ou minimizá-lo. Não se trata de pretender que os denunciados sejam prejulgados. Ao contrário: os exemplos que o Brasil coleciona em situações semelhantes nos fazem lembrar a importância da cautela para evitar injustiças. Mas é preciso considerar que toda a questão deve ser plena e completamente investigada, tanto por parte do Ministério Público, que já anunciou inclusive a intenção de pedir a indisponibilidade dos bens de Eduardo Alonso (naturalmente ele deve ser obrigado a devolver aos cofres públicos o que confessadamente tirou), como também da Câmara Municipal, que tem, entre suas atribuições, a de ser uma espécie de vigia da atividade do Executivo. Há ainda apurações em andamento nos órgãos policiais e numa auditoria interna aberta pela própria prefeitura.
Não há como fugir à situação, nem como evitar seus desdobramentos. A confissão de Eduardo Alonso confirma as suspeitas. E, certamente, é parte de todo um processo que precisa ser totalmente desvendado, atingindo a todos os responsáveis. Tanto o Legislativo municipal quanto o Ministério Público têm a obrigação de enfrentar este desafio e ir ao fundo da questão. Acredita-se que ao próprio prefeito Antonio Belinati há de interessar que a questão seja plenamente investigada, com os responsáveis sendo denunciados e punidos conforme a lei, devolvendo o que tiraram do dinheiro público e recebendo a punição adequada a quem comete delito tão grave.





