O jornal argentino ‘La Nacion’ destacou na edição de ontem os recentes acontecimentos no Continente, citando: ‘‘O Equador em crise de governabilidade; o Chile em tensão interna pelo caso Pinochet; a Argentina semiparalisada politicamente pelo debate da reeleição e pela mudança de governo no fim do ano; o Brasil em meio à crise econômica que o afeta desde o começo do ano; a Colômbia estremecida pela violência que não tem fim; a Venezuela com a incerteza de para onde aponta finalmente o novo presidente e, como se isso fosse pouco, um assassinato político de máxima gravidade no Paraguai’’. Em poucas linhas, um quadro complexo e, no mínimo, preocupante.
Naturalmente, é possível considerar que uma coisa nada tem a ver com a outra, que cada país enfrenta determinado tipo de problema. O assassinato do vice-presidente paraguaio nada tem a ver com a crise econômica brasileira ou com a vontade do presidente argentino de se perpetuar no cargo, como, aliás, parece também ser o sonho do presidente peruano, Alberto Fujimori, não citado mas sempre lembrado quando se cogita da instabilidade mais ou menos frequente da América Latina, considerada como um todo porque o México e os países do Caribe também vivem em permanentes dificuldades. Entretanto, o que fica muito claro é que apesar de todos os discursos pró-democracia, o Continente ainda vive numa realidade complicada, com a vontade do povo sendo manipulada, o uso de truques (que podem ir de filigranas jurídicas ao assassinato político) deturpando o sentido mesmo da representação e transformando, em certos casos, a democracia em uma quase farsa.
Trata-se, inegavelmente, de realidades distintas em cada um dos países do Continente, todas porém revelando uma situação idêntica: a instabilidade. E embora haja, atualmente, uma verdadeira pressão no sentido da preservação da democracia, não só no Mercosul, mas no Continente e mesmo no mundo, tem-se acompanhado alguns expedientes que servem para mascarar, alguns toscamente, verdadeiros golpes de Estado. O Peru tem o exemplo mais evidente: o sr. Fujimori erigiu uma ‘democracia’ sobre ações altamente ilegais. Atualmente, na Argentina, o sr. Menem luta para mudar de novo a Constituição, a fim de tentar outro mandato. Se lograr esta alteração, como já aconteceu no passado, poderá dizer que está dentro da lei. Todavia, quando a Constituição de um país pode ser modificada ao sabor do interesse continuísta de alguém, é complicado considerar que existe uma democracia realmente atuante.
O que está acontecendo agora no Paraguai também não é diferente. Como para se manter no Mercosul (e não ser marginalizado no mundo) o vizinho país não pode se dar ao luxo de um golpe de Estado, tem-se o assassinato político deflagrando uma série de atitudes que, em tese, são legítimas, mas que não chegam a esconder uma briga pelo poder entre os mesmos que, há pelo menos meio século, dominam a situação paraguaia. O vice-presidente é vítima de um atentado, o Congresso, legitimamente, começa o processo de impeachment do presidente (não, naturalmente, por causa do crime, cuja autoria ainda não foi determinada) e, no final, haverá sempre uma aparente solução politicamente correta, sem ferir, em teoria, os princípios democráticos.
Este tipo de malabarismo, porém, acaba não conseguindo esconder a realidade da situação de miséria e sofrimento de uma crescente maioria em todo o Continente. A democracia poderia servir para abrir caminhos, criar oportunidades, na medida em que valoriza o cidadão e oferece, na igualdade legal, a dignidade que é um direito de todo o ser humano. O que é preciso é que se implante a legítima democracia, sem subterfúgios.

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