Insegurança assustadora
Mais do que inconcebível ou inaceitável, a situação que enfrentam os moradores de favelas de São Paulo e Rio, submetidos à ‘lei’ do tráfico, que inclusive determinou ‘toque de recolher’ (em Heliópolis, SP) é assustadora. De repente, o cidadão comum se torna refém do crime organizado. Os fatos em São Paulo são verdadeiramente aterradores: escolas suspendem as aulas à noite, por medo; aulas de educação física deixam igualmente de ser ministradas por causa do risco de balas perdidas; o comércio muda o horário de funcionamento. Em outro local de São Paulo, na zona sul, uma policial militar que deveria dar segurança a um estabelecimento de ensino foi fuzilada na porta da escola. E, segundo as testemunhas, um dos suspeitos é criminoso conhecido da área.
A situação se torna tão angustiante que aumenta a tendência, junto à população desarmada e desprotegida, de pedir a intervenção das Forças Armadas para garantir a segurança. Ocorre que esta alternativa não é a melhor, sequer pode ser considerada aceitável. Já se tentou isto, no Rio, há alguns anos, e não funcionou, inclusive porque não é esta a função das Forças Armadas, seus efetivos não são treinados para este tipo de trabalho. Quem deve, conforme o que estabelece a própria Constituição, garantir a segurança da população são os organismos policiais de cada Estado. Existe também a Polícia Federal, mas sua jurisdição é diferente e embora aja contra o tráfico, não tem efetivo ou condições para suprir a deficiência policial nos Estados. O que se tem como resultante natural é que esta situação de insegurança, esta verdadeira subversão da ordem, com o tráfico estabelecendo leis para os cidadãos, atinge um patamar que transtorna o povo e o deixa assustado e mais descrente da autoridade constituída. Logo, se é que já não está fazendo, o tráfico vai cobrar ‘impostos’ da população refém.
O tráfico de drogas constitui hoje um dos maiores flagelos da humanidade. Movimentando milhões no mundo inteiro, usando com a mesma facilidade o suborno ou a violência, representa atualmente um dos mais graves desafios com que se defronta a chamada sociedade civilizada. Em alguns países chega a influir politicamente. Em outros, como se percebe com o que está ocorrendo nos mais desenvolvidos centros do Brasil, estão aumentando cada vez mais seu poder e controle. E não há como deixar de perceber que se a lei não conseguir se impor ante esta terrível ameaça, toda a vida ordenada como a que se pretende na sociedade organizada está em perigo. O que está acontecendo em São Paulo e Rio é gravíssimo e o mais sério é que em outros Estados a situação não é muito diferente. O tráfico de drogas estende suas redes por todo o Brasil e pelo mundo e se mostra cada vez mais arrasador em sua escalada.
Não há alternativa para a sociedade diante deste desafio. Os moradores das cercanias da favela dominada pelo tráfico, em São Paulo, ou os que residem nas que há tempos são controladas pelo crime no Rio, são parte de uma população brasileira assustada, que tem o direito de exigir segurança das autoridades. O combate aos cartéis, no mundo, reclama atualmente uma ação coletiva, indispensável até para que haja sucesso contra o tráfico. Já no que tange a cada Estado, é imprescindível que haja uma priorização no sentido de se garantir aos órgãos de segurança condições para enfrentar e vencer este desafio.
Sabe-se que a luta contra a droga envolve muitos outros fatores, além da segurança. Todavia, neste momento, com o tráfico se tornando senhor da vida de milhares de brasileiros, o que se exige é ação policial eficaz, contundente e rápida para garantir aos cidadãos o mínimo de segurança de que cada um é credor em um país civilizado.

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