Inflação programada
O IBGE divulgou ontem o IPCA de novembro, que ficou em 0,95%. O resultado é 0,24 ponto percentual abaixo do de outubro. A taxa acumulada do ano está em 8,29%, acima da meta de inflação fixada pelo Banco Central para este ano, mas ainda dentro da margem de variação de dois pontos percentuais. A taxa acumulada nos últimos doze meses é de 8,65%. Conforme as informações, os alimentos reduziram seu ritmo de aumento em novembro em comparação com a alta de outubro, quando tiveram forte pressão sobre o IPCA. Os produtos não-alimentícios aumentaram 0,87% no mês passado, índice também inferior ao de outubro, quando atingiu 1,02%. O maior impacto em novembro foi exercido pela alta dos preços da gasolina (4,60%) e do álcool combustível (30,33%). Juntos, esses dois aumentos foram responsáveis por 0,37 ponto percentual no IPCA do mês, que foi de 0,95%.
Conclui-se que os dados inflacionários estão dentro do que foi projetado pelas autoridades econômicas e esta percepção é importante porque estabelecer metas de inflação, trabalhando com índices em elevação, é complicado. O Brasil tem experiência nesta questão. Em certo sentido, é mais fácil tentar acabar com a inflação de uma vez do que mantê-la em determinado nível.
O mais sério, porém, é que para a população este índice – que é, como salientou o presidente Fernando Henrique Cardoso, infinitamente inferior às taxas existentes antes do plano de estabilização da economia – produz efeitos danosos. Os brasileiros vêm enfrentando há décadas esta luta e sofrendo, em especial as faixas mais pobres, os efeitos terríveis da escalada inflacionária. Nos anos que antecederam ao que acabou sendo chamado globalmente de Plano Real, a situação atingiu níveis insuportáveis. Houve momentos em que se temia pelo caos sem remédio. Inegavelmente, o que evitou a degringolada foi a indexação, que não garantia total reposição, mas amenizava os efeitos maiores da espiral inflacionária.
Os planos econômicos que precederam o atual, atacaram desde logo a indexação e, nos primeiros momentos, davam a impressão de sucesso. Mas como faltava uma estrutura adequada, falharam irremediavelmente, lançando o País em nova escalada inflacionária. O Plano de Estabilização da Economia, com uma engenharia competente, acabou produzindo resultados não obtidos em outras oportunidades. Promoveu, na primeira etapa, a plenitude da indexação, o que facilitou o corte, quando o real foi lançado, deste primeiro problema. E as demais medidas de ordem fiscal (incluindo o Fundo Social de Emergência, que existe até agora, com outro nome) garantiram as condições para que acontecesse de fato a vitória gradual, mas firme contra a inflação.
As pressões econômicas deste ano acabaram levando o governo a aceitar uma taxa inflacionária para o período, pela casa dos 8%, com uma pequena variação. É o que se está atingindo, conforme os números do IBGE. Com as previsões sobre a queda no ritmo inflacionário, este mês, apesar do esperado aumento no movimento comercial, acredita-se que o índice projetado pelo governo será atingido. Importa, porém, perceber que em uma economia sem indexação, 8 a 9% de inflação anual pode ser pior do que os 15% mensais dos anos 80. Não é interessante brincar com o chamado dragão inflacionário. As autoridades sabem disto. Não podem perder o controle agora, sob pena de produzir uma situação que a própria coletividade não aceita mais.

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