Editorial - Inflação e salários
Inflação e salários
Efeito da inflação: bancários, metalúrgicos, químicos, comerciários, marceneiros e muitas outras categorias importantes estão novamente com perdas significativas no poder de compra, apesar dos recentes acordos que zeraram o prejuízo acumulado em 12 meses. Os bancários conseguiram reajuste de 5,5% nos salários em setembro. Mas a inflação continuou subindo e já agora, para recompor o valor de seus ganhos, eles deveriam ter novo reajuste, de 4,25%. Para os metalúrgicos, químicos e comerciários de São Paulo, com data-base em novembro, o reajuste necessário seria de 2%. Para os marceneiros, com data-base em outubro, o índice seria de 3,13%. Também fecharam acordos salariais com validade a partir de outubro os metalúrgicos de Minas Gerais e do Rio de Janeiro.
Por enquanto, nenhuma categoria fala em organizar campanhas salariais de emergência. Mas a Central Única dos Trabalhadores e a Força Sindical alertam que os salários voltarão a ser prioridade no ano 2000, depois de cinco anos nos quais a principal bandeira foi a manutenção do emprego. A intensidade com que isso vai ocorrer dependerá obviamente do ritmo da inflação e da ampliação do mercado de trabalho com o reaquecimento da economia. Se houver queda expressiva nos índices de inflação nos primeiros meses do ano, a tendência é de que o movimento sindical espere as datas-base para deflagrar mobilizações.
O efeito devastador da inflação e do desemprego nos salários já pode ser sentido nas estatísticas sobre renda apresentadas mensalmente pela pesquisa do convênio Seade-Dieese. Em média, os ocupados perderam 4,5% de seus rendimentos em 12 meses. A massa salarial caiu 4,1% também em 12 meses. Mesmo depois de grandes negociações, os rendimentos apresentaram quedas expressivas, em todos os segmentos sociais e para todos os trabalhadores, assalariados ou não. Só que os mais pobres, como sempre, tiveram menos armas contra a corrosão de seus ganhos.
Não interessa a ninguém a volta da indexação. Mas é óbvio que a queda no poder aquisitivo da população também produz problemas sérios e, em prazo não muito longo, pode piorar a situação da economia. Prevalece de novo a antiga tese do ex-porta-voz presidencial do tempo da ditatura, Carlos Átila, que dizia ser melhor um salário ruim do que o desemprego. É certo, sob determinada ótica, mas é inegável que esta realidade traz de volta a desvalorização do trabalho, como fonte de estabilidade e dignidade de vida.
O que vai, afinal, definir melhor o comportamento dos sindicatos é o próprio desempenho da economia e, principalmente, da inflação. Se, como pretende o governo, for mantida a previsão de uma redução nos níveis inflacionários, neste ano, e se, adicionalmente, houver a esperada melhoria no índice de empregos, então é possível que não haja mobilização no sentido de garantir reposições salariais indexatórias. Entretanto, apesar de todas as previsões positivas, as próprias autoridades já anunciaram temer o efeito dos reajustes nas tarifas públicas que têm pressionado a inflação e podem alterar a situação de modo grave. Vale lembrar que o IGP-DI acumulou, no ano, alta de 18,52% até novembro, mais do que o do dobro do IPC, sendo o índice utilizado pela Telefônica para calcular o reajuste de tarifas aos consumidores, apesar de nenhum trabalhador ter tido aumento salarial desse nível. É uma tarefa complicada a dos gestores da economia: precisam vencer este e alguns outros desafios para manter a inflação sob controle, o que é vital para não se perder todo o sacrifício anterior na luta pela estabilidade.





