EDITORIAL - Inflação e dificuldades
Enquanto a inflação brasileira ficou em 88,34% durante o período do real julho de 1994 a junho de 2000 , a gasolina subiu 132,88% e o gás de cozinha teve alta de 217,03% (ambos no mesmo período). Como já neste sábado os derivados de petróleo sobem de novo, com uma alta que deve ficar em 11%, na gasolina, e 7,7% no GLP, para o consumidor, aumenta o diferencial entre a inflação e o preço de tais produtos, pressionando ainda mais o índice inflacionário. No passado, como se recorda, as altas nos preços dos derivados de petróleo tinham uma influência maior, pesando demais sobre a inflação. Era uma época de indexação plena, quando tudo subia quase que diariamente, um tempo em que até mesmo os parâmetros sobre preços e valores acabaram perdidos. A nova engenharia criada com o plano de estabilização mudou as coisas, de tal modo que as elevações acima da inflação nos preços de produtos vitais, como os combustíveis, acabam não se refletindo tão diretamente sobre os índices finais.
Esta situação, porém, não é a ideal. Manter a inflação em níveis baixos constitui sem dúvida a principal meta do plano de estabilização. Os resultados positivos disto foram grandes e ainda são, em certo sentido. Todavia, quando se observa como determinados produtos continuam a subir, apesar de tudo, tem-se a percepção de que alguma coisa está errada. Sabe-se que os preços dos derivados de petróleo dependem de situações que estão além até do que podem fazer as autoridades nacionais. O preço do petróleo subiu muito nos últimos meses, reflexo de uma série de ocorrências em nível mundial. E o Brasil, que continua a importar uma parcela elevada de seu consumo de derivados de petróleo, acaba sofrendo os efeitos do mercado mundial. Com isso, as correções de preço, como estas que vão acontecer no sábado, são praticamente inevitáveis.
Mais grave, porém, é perceber que esta situação cria outros problemas, até porque o cidadão está pressionado hoje por dificuldades muito sérias para garantir a subsistência própria e dos que dependem dele. Para enfrentar altas que não podem ser acompanhadas pelo salário e há a considerar também a ampla massa que não tem sequer emprego , o cidadão adota medidas de contenção. O chefe do Centro de Estudos de Preços da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Paulo Sidney Melo Cota, analisando o resultado do núcleo da inflação de junho do IGP-DI, de 0,16%, entende que a demanda no País ainda está muito deprimida, apesar dos indicadores de recuperação da atividade econômica. Cota explica que o núcleo da inflação mede a variação dos preços causada pelo aumento da procura e não a que se deve à falta de oferta de produtos. O número de 0,16% se refere ao núcleo da inflação relativo ao IGP-DI de junho e à inflação de demanda. O técnico considera que no momento a recuperação que está ocorrendo na economia decorre do uso da capacidade ociosa, ponderando que é necessário que o emprego e a massa salarial aumentem muito para elevar a demanda significativamente.
No fim, tudo se resume numa realidade dramática ainda não superada: o Brasil reclama mudanças mais amplas no setor econômico que tornem possível o acesso da população a bens que garantam o mínimo necessário à subsistência. A inflação continua contida, mas este é só um dado a ser colocado em relação ao todo. O brasileiro está participando com tremenda disposição do esforço para conter a inflação e estabilizar a moeda. Mas o sacrifício torna-se cada vez maior. Reclama-se das autoridades a percepção e a sensibilidade para a situação, adotando, com urgência, medidas capazes de levar aos mais carentes trabalho e salário condizentes com as suas necessidades.





