Editorial - Inflação e desenvolvimento
Inflação e desenvolvimento
Uma taxa de inflação acumulada de 5,09%, nos primeiros sete meses do ano, pode parecer pequena se comparada com a situação existente antes do Plano Real, quando em uma semana o índice era muito maior. Ademais, existe uma projeção oficial de uma taxa de 8% para este ano, o que significa que o total atingido até agora não está fora das projeções, até porque há a previsão de altas menores nos próximos meses. Entretanto, nos parâmetros do que se poderia chamar de economia civilizada, estes números parecem elevados. E diante do quadro ainda recessivo que persiste após todos estes anos, constitui um fator preocupante.
Quando se lançou o projeto de estabilidade econômica, o objetivo era zerar a inflação. E não se pode esquecer que ponderável parcela daquela imensa taxa inflacionária que o Brasil enfrentava decorria da famosa indexação, que surgiu como meio para estabelecer uma convivência com a inflação crescente e que acabou se tornando um fator a mais para ampliar os índices. Tanto isto era correto que bastava forçar a desindexação para fazer baixar rapidamente a inflação. Isto se verificou em todos os planos econômicos anteriores ao real. O que acontecia, porém, é que, devido à falta de uma engenharia concreta para aqueles projetos, logo a inflação voltava, a indexação a acompanhava e as coisas pioravam. Com o Plano Real, um programa muito bem articulado, o resultado foi diferente. Primeiro, o governo provocou a indexação total. Depois, lançou a nova moeda. E através das medidas complementares e de um acompanhamento criterioso, os resultados foram surgindo. A inflação despencou desde logo (o que era natural), mas continuou caindo até chegar aos impressionantes índices do ano passado.
A aceitação de um patamar perto de dois dígitos, para este ano, dentro inclusive dos acordos feitos com o FMI, preocupa porque restaura um piso perigoso. Importa sempre rememorar que, muitas vezes, toda a incrível inflação brasileira era ilusória, fruto mais da indexação. Excluído o fator indexatório, os números eram altos, mas não chegavam a ser catastróficos. E, além disto, a própria indexação acabava ajudando a reduzir o impacto maior das altas. Neste momento, os 8% projetados para este ano parecem pesados demais. Juntamente com o quadro ainda recessivo, tem-se aquela que é a pior de todas as desgraças econômicas, a chamada estagflação, recessão com inflação. Se, por motivos de gerenciamento econômico, é preciso conviver com uma inflação de quase um por cento ao mês, tem-se que é imperioso que se adotem medidas colaterais para restaurar pelo menos um quadro de crescimento da economia do país como um todo.
Esta semana, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horacio Lafer Piva, elogiou o ministro da Fazenda Pedro Malan, mas adiantou que o setor industrial gostaria que ele incorporasse a palavra desenvolvimento ao seu discurso. Segundo Piva, após a liberalização cambial, não faz mais sentido centrar a discussão econômica em termos de estabilidade da moeda em detrimento da volta do desenvolvimento econômico. Para Piva, o País tem de deixar de ter queda em seu Produto Interno Bruto para voltar a crescer a taxa de 5% ao ano a fim de incorporar a juventude que quer entrar no mercado de trabalho. Para isso, é preciso que as taxas de investimento deixem de ser inferiores a 20% do PIB atualmente, para superar 23% do PIB. Piva diz que a arquitetura do Plano Real foi boa, mas que é preciso deixar agora a discussão macroeconômica para passar a lidar com a realidade da microeconomia (o dia-a-dia das empresas). Retomar o crescimento, sem dúvida esta deveria ser a linha básica do governo, antes que esta nova inflação provoque ainda mais dificuldades para o Brasil.





