Quatro anos atrás, quando se deflagrava a campanha presidencial, o Brasil vivia dois climas: de um lado, a euforia pelo sucesso do plano de estabilização da economia, dando ao mentor do programa, o então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, a base para ganhar a Presidência da República sem necessitar de segundo turno; do outro, a Oposição jogando tudo para apresentar o plano como um programa eleitoreiro, que se esgotaria logo após a eleição, como o Plano Cruzado. A maioria do eleitorado preferiu acreditar na primeira hipótese e levou FHC à Presidência. Agora, quatro anos depois, a inflação trimestral em São Paulo bate um recorde (-0,15%) que não acontecia desde 1942.
Mais, ainda, levando em conta que este período é o de maior pressão nos preços e que há concretas esperanças de que as tarifas públicas subirão menos do que em 1997, a projeção para 1998 é de uma taxa de 2,5% em São Paulo. É o que se poderia chamar de inflação civilizada. Como os índices paulistanos quase sempre são mais altos que os do restante do País, é bem possível que o Brasil tenha este ano uma taxa ainda menor do que essa, talvez a mais baixa de sua História. Este é um resultado fantástico, se comparado com a realidade que tínhamos antes do Plano Real.
Porém, a inegável satisfação diante deste sucesso - que não é só do Governo, mas, principalmente, da população que assumiu o plano, aceitou os sacrifícios e continua firme - não deve ser motivo para euforias. Pois o resultado também reflete uma taxa de juros sem precedentes no Brasil e no mundo. E além disso, deflação prolongada desestimula investimentos produtivos, reduz a renda das empresas e pode jogar a economia numa depressão, com mais desemprego do que hoje.
Isto posto, deve-se anotar que o que ocorre no Brasil é consequência de se haver formulado uma política econômica civilizada, que reage normalmente aos estímulos e/ou freios oficiais. Na década passada e começo desta, por exemplo, uma alta nos juros tinha pouco efeito sobre a inflação. Hoje, com a relativa estabilidade da moeda, a economia ficou extremamente sensível à taxa de juros e às taxas de câmbio. É assim em todo o mundo civilizado, razão pela qual o grande segredo das políticas monetárias, de juros e de câmbio é não errar na dose. Nem para mais, nem para menos. E no Brasil basta dar uma olhada nas taxas para constatar que se a inflação está em níveis civilizados, a política de juros é bárbara, brutal.
Não só porque os juros foram multiplicados por dois em outubro - como se fosse uma operação aritmética trivial -, mas porque desde 1993 o Governo vinha oferecendo taxas elevadíssimas para seus títulos e, com isso, impondo custos financeiros pesadíssimos a toda a economia. A emergência de outubro até poderia ser menos danosa se a economia já não estivesse sangrando há quatro anos. E como se fosse pouco, à barbárie dos juros soma-se uma taxa de câmbio que estimula fortemente a importação e mata por anemia as exportações, abrindo um rombo desmesurado na balança comercial.
Mas há bons sinais no horizonte. O Governo já começou a reduzir os juros, o mercado está respondendo com taxas mais baixas e outras quedas nas taxas básicas são prometidas para este mês. Ao mesmo tempo, o câmbio está tendo correções mais acentuadas e a recuperação das reservas brasileiras - que constituem o lastro do Real - foi rápida o bastante para alcançarem níveis até maiores que os de antes da crise asiática. Logo, está ficando cada vez mais claro que já podemos civilizar também os juros, colocando-os gradualmente no patamar histórico dos 12% ao ano.
Os brasileiros querem viver sem inflação, mas ninguém quer viver sem emprego e sem salário. O trabalho é o fator primordial da cidadania. Sem ele não se é ninguém, mesmo com todo o dinheiro que se possa ter. É preciso uma política nacional de crescimento econômico e já existem condições para isto.

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