Impunidade ameaçadora
Afirmar que a corrupção governamental é resultado dos 21 anos de ditadura que o Brasil viveu, entre 1964 e 1985, é desconsiderar outros períodos de nosso passado e esquecer a realidade. Infelizmente, nepotismo, abuso, corrupção, fraudes, vícios imensos fazem parte da própria História. São remanascentes, em certos casos, da época em que o País era colônia, avultaram durante o Império, persistiram na República Velha, estiveram presentes na ditadura Vargas, mantiveram-se durante a redemocratização de 45 a 64. Mas, sem dúvida, tudo isso floresceu ao abrigo do último regime totalitário, sendo que a inflação que foi se exacerbando ao longo daquele período - o que solapa os valores morais de qualquer sociedade - ajudou em muito a produzir uma verdadeira orgia de abusos.
Com a redemocratização e, principalmente, com o exercício da liberdade de imprensa em sua plenitude, muitas práticas já foram denunciadas, alguns políticos perderam o mandato, muitas pessoas que se julgavam acima e além das leis foram presas. Entretanto, passados quase 15 anos do fim da ditadura, ainda são visíveis práticas inaceitáveis e inconcebíveis de abusos em vários setores. As CPIs em funcionamento, notadamente a do Judiciário e a do Sistema Financeiro, têm revelado uma fieira de abusos verdadeiramente chocantes. Paralelamente, nos Estados e municípios, também há uma série imensa de denúncias. Em São Paulo, as investigações sobre a atuação de alguns vereadores revelam um verdadeiro loteamento criminoso, com os corruptos formando verdadeiras máfias de exploração, suborno e chantagem. Mais recentemente, denunciou-se a farra dos ministros que usam aviões da FAB para fazer circuitos turísticos em Fernando de Noronha. E há, também, a descoberta de tráfico de drogas em um avião da FAB.
O pior de tudo isso, porém, é que bem poucos dos acusados são punidos. As denúncias que se sucedem, em Brasília como em São Paulo, Londrina, por vários pontos do País, raramente são acompanhadas de informações sobre punições. Agora mesmo, em São Paulo, é forte o movimento em defesa dos vereadores acusados. O espírito de corpo funciona, é forte a ameaça de tudo o que foi denunciado ser jogado para baixo do tapete, persistindo a impunidade e, certamente, a corrupção. Os poucos que perderam o mandato, os que foram presos, parecem mais uma espécie de bodes expiatórios jogados sobre a opinião pública como um jogo de cena, enquanto a maioria continua impune, o nepotismo persiste, os abusos apresentados como legais, mas que são manifestamente imorais, vão sendo cometidos sem que se pressinta um fim para esta situação.
Esta é, inegavelmente, a mais séria ameaça que paira sobre o regime. A população está se desencantando dos políticos. Nas últimas eleições, o percentual dos que se omitiram na escolha para os legislativos atingiu o ponto mais elevado entre todas as nações democráticas do mundo. Para um crescente número de cidadãos, política é praticamente sinônimo de falta de vergonha. Não é um conceito correto, mas é uma conclusão que surge naturalmente diante de todos os crimes e imoralidades que vêm sendo cometidos nos mais elevados escalões de governo. A impunidade é, sem qualquer dúvida, um dos maiores inimigos da democracia - e, na verdade, não faz parte dela - e coloca em risco todas as conquistas populares.
As denúncias e investigações representam uma etapa no processo de moralização do País. Já passou tempo suficiente, desde o fim da ditadura. Não se pode mais aceitar a continuidade dos abusos criminosos cometidos por maus políticos. É preciso limpar o mundo econômico e político dos rufiões, em nome da própria democracia.

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