Pesquisas refletem uma realidade do momento em que são feitas. Por este motivo é que se informa, na divulgação dos levantamentos eleitorais, que ‘‘se as eleições fossem neste dia’’ o resultado seria o divulgado. Entretanto, quando resultados similares vão se repetindo ao longo do tempo, tem-se o que os especialistas chamam de tendência. Assim, a repetição da performance negativa do governo Fernando Henrique Cardoso ao longo dos meses retrata a continuação de uma situação. Desde janeiro, o índice de avaliação positiva obtido na pesquisa Vox Populi pelo governo se manteve em parcos 16%. Em abril, este índice caiu mais um pouco, chegando aos 14%. Isto significa que neste momento o prestígio do presidente (e de seu governo) está mais baixo, mas se percebe que em todo este ano esteve muito mal. Não se pode, portanto, considerar que o resultado reflita alguma situação específica, ficando claro que a população de modo geral não está satisfeita com o desempenho do governante que reelegeu, em primeiro turno, há pouco mais de um ano. O mais curioso é que esta avaliação negativa, que piorou em abril, ocorre justamente quando se percebe melhoria em alguns indicadores econômicos.
A conclusão disto é simples: a popularidade do presidente não está ligada a uma eventual mudança nos índides econômicos, refletindo na verdade a insatisfação em face da falta de ações mais práticas do governo para resolver de fato os problemas que mais preocupam a população. Vale assinalar que o presidente continua a fazer um discurso vigoroso e firme diante de quaisquer circunstâncias. Já manifestou o ‘asco’ ante o quadro de corrupção desenhado pelas sucessivas denúncias que vêm acontecendo como uma verdadeira avalanche, em toda parte. Igualmente acaba de fazer um forte pronunciamento a respeito da greve dos caminhoneiros, anunciando até a intenção de colocar o Exército em ação para acabar com os bloqueios. Entretanto, o resultado das pesquisas e a simples observação da queda efetiva de popularidade do presidente junto ao povo deixam evidente que a população já não acredita mais em frases pomposas, em discursos vibrantes, em explosões verbais que não sejam acompanhadas de ações concretas. E que sejam factíveis.
O caso mesmo desta recente ameaça de chamar o Exército para reprimir bloqueios nas rodovias e a ocupação de prédios públicos é bem elucidativo. Em princípio, é mister rememorar que o Exército não tem este tipo de função. Como também seus membros não têm a capacitação para tal empreendimento. A tentativa de acabar com o tráfico de drogas nas favelas do Rio, usando o Exército, deveria ter servido como lição. Ademais, e esta ainda é a lição mais importante, a população não acredita neste tipo de solução, nem a quer. O que exige é que o governo tenha sensibilidade, iniciativa, até mesmo audácia, mas principalmente capacidade política para resolver este e os demais problemas que estão levando à falta de confiança do povo nos seus governantes.
A lenta recuperação da economia é um fator positivo, sem dúvida. Mas para que a situação da popularidade do atual governo se modifique vai ser preciso bem mais que isto. Será necessária, além da continuação do aquecimento econômico, a adoção por este governo de atos concretos destinados a garantir que o Brasil não está entregue à própria sorte sem um comandante que saiba o que precisa fazer.

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