A prestigiosa revista inglesa ‘The Economist’, na edição lançada ontem nas bancas, alertou governos e políticos latino-americanos para o ‘mal-estar’ que se estende pela região e que, em sua opinião, ameaça corroer as difíceis conquistas obtidas nos últimos anos. No seu editorial central, o periódico britânico adverte que, embora um ‘‘desvio populista não esteja iminente’’, os políticos e os governos ‘‘devem realizar sua revolução macroeconômica, e complementá-la com rápidas reformas institucionais e econômicas, para não correrem o risco de que as conquistas obtidas com sacrifício sejam corroídas pelo cinismo e pelo descontentamento’’.
A revista destaca que ‘‘uma década de regimes democráticos amplamente dedicados a reduzir a inflação, as economias livres e o comércio aberto não trouxe o crescimento sustentado, exceto no caso do Chile; e embora tenha assentado as bases para isso, também tornou mais visíveis velhas aflições, acrescentando outras novas’’.
Segundo o editorial da revista, a América Latina crescerá apenas 3 por cento este ano e, ‘com sorte’, 4,5% no próximo. ‘‘Muito pouco desse crescimento chegará até os pobres’’, afirmou. De todas as formas, a revista destacou que a região ‘‘provavelmente não está à beira de um levantamento populista ou autoritário’’, e acrescentou: ‘‘O desafio maior é tornar mais eficientes ao mesmo tempo os governos e os mercados. A América Latina precisa urgentemente transmitir confiança nas instituições da vida pública. Está tentando casar democracia com economia de mercado em sociedades profundamente desiguais. Isso nunca será uma tarefa fácil. E se torna ainda mais difícil devido a um cinismo às vezes justificado’’, concluiu.
O que ressalta nesta visão do prestigioso órgão inglês é a constatação de que são reais as preocupações sobre os riscos que correm as economias latino-americanas. O problema é sério e, no que tange ao Brasil, reclama ação mais coerente e responsável por parte dos que governam, incluídos aí, principalmente, Executivo e Legislativo. O modo como se postergam decisões fundamentais, como as das reformas estruturais, é verdadeiramente irresponsável. O jogo de interesses que alguns insistem em fazer, tentando barganhar transformações essenciais com interesses particulares ou paroquiais, representa verdadeiro atentado ao país, algo inaceitável em qualquer democracia civilizada.
O preço a pagar pela irresponsabilidade com que se conduz o processo de reformas é muito alto. E a população, especialmente os mais carentes, é que, como sempre, acabará sofrendo os maiores prejuízos. Ocorre que neste momento histórico da vida brasileira, depois de anos de descalabro econômico, quando o sacrifício de muitos produz efeitos positivos e restaura a esperança na população, é ainda mais tenebrosa a hipótese de se perder tudo isto em função da irresponsabilidade criminosa de quem deveria, até porque foi eleito para isto, dedicar-se plenamente a corresponder aos anseios gerais.
As reformas tributária, administrativa e da Previdência, a privatização, as mudanças estruturais que se reclamam para garantir não só a estabilidade, mas também e principalmente, a continuação do processo de desenvolvimento auto-sustentado, não podem continuar paradas. O Brasil está perdendo tempo demais e, caso persista este imobilismo criminoso, vê aumentar os riscos de esboroar tudo o que já foi feito. O alerta da ‘The Economist’ precisa ser levado a sério, urgentemente.

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