Editorial
Ilusão perigosa
Passados cerca de quatro anos desde que o Brasil conseguiu vencer a catastrófica inflação de tempos recentes, ainda existem os que se comportam como órfãos daquele período. Este parece ser o caso do presidente da Câmara Federal, Michel Temer, que defendeu ‘um pequeno aumento de inflação’ em troca de maiores somas de recursos para os programas sociais. Uma idéia estranha se apresentada por uma pessoa comum, mas absurda por partir de um político de muita experiência, como é o caso do parlamentar que preside atualmente a Câmara dos Deputados. O sr. Temer, com esta sugestão, relembra épocas em que o Brasil resolveu se aventurar por este mesmo caminho, inclusive com a ilusão de que poderia estabelecer ‘convivência com a inflação’. Foi então que surgiu a famigerada correção monetária, verdadeiro truque econômico que, em tese, propiciaria condições de se manter a inflação, considerada importante para garantir maior desenvolvimento em todas as áreas.
O equívoco é de base. Inflação é uma doença terrível, avassaladora, que leva ao caos os países que caem sob seu jugo. O Brasil não só conviveu longos anos com inflação crescente, mas acabou experimentando verdadeira megainflação, fenômeno que além de destruir a moeda acabou também criando distorções terríveis sobre a economia, ao mesmo tempo em que, como câncer social que é, ia atingindo todo o organismo social. Para piorar, as maiores vítimas eram as classes menos favorecidas, que pagavam terrível preço por esta situação incontrolável.
O preço para sair desta espiral é sempre alto. Este sempre foi o drama: a inflação é uma doença, mas a cura é difícil, exige sacrifícios. Muitas vezes, os especialistas brasileiros tentaram encontrar atalhos ou desvios, caso típico do Plano Cruzado, do Plano Collor, entre outros, para conseguir acabar com a inflação sem dor. Falharam. O Plano Real, com uma engenharia muito bem articulada, constitui sem dúvida uma das mais inteligentes soluções encontradas para enfrentar o problema. As taxas inflacionárias caíram drasticamente nos primeiros tempos e continuam em queda agora, com o país quase se aproximando do que se pode chamar de uma ‘inflação civilizada’.
Naturalmente, por mais bem estruturado que seja o Plano Real, existem sequelas, como os brasileiros estão sentindo. Neste momento, é elevada a taxa do desemprego, os problemas sociais se agravam. Todavia, há a considerar que os maiores beneficiários da queda da inflação foram os mais pobres, os milhões de marginalizados do Brasil. O que se faz necessário agora é iniciar novos programas para criar condições a uma retomada do investimento produtivo. Contudo, é não só ilusório, mas perigoso pensar que isto será feito com ‘um pouco de inflação’. Ademais, não existe isto: começar a provocar inflação acaba por se tornar, de novo, algo incontrolável. E vai se perder todo o sacrifício feito até agora.
Felizmente, esta tese do presidente da Câmara Federal não encontrou eco junto ao governo. Notícias oriundas dos meios ligados à administração econômica indicam que em nenhuma hipótese irão impor risco ao controle da estabilidade da moeda. Os economistas do governo têm claro que a tese de que um pouco de inflação não tem problema é uma falácia. Isto, porém, precisa ficar claro para a população em geral. Em ocasiões difíceis, como a atual e, principalmente, às vésperas de uma eleição, chega a ser tentadora a hipótese de ‘abrir as comportas, um pouquinho’ para aliviar a crise. Mas isto representaria um risco enorme, um preço muito alto que o próprio povo brasileiro, seguramente, não quer pagar outra vez.

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