Editorial - Homenagem aos imigrantes
A comemoração dos 90 anos do início da imigração japonesa no Brasil, que se realiza hoje em Rolândia, oferece uma rara oportunidade para que se preste uma homenagem a todos quantos, principalmente a partir do século passado, vieram de pátrias distantes, trazendo na bagagem a esperança, misturada sem dúvida com uma grande dose de medo, e que ajudaram a plantar aqui uma nova civilização. E a presença, entre os convidados, do presidente Fernando Henrique Cardoso constitui por si a medida da importância da festa e da grandeza de se definir, constantemente, o reconhecimento pela ação dos imigrantes e de seus descendentes no trabalho de construção de uma nação que, hoje, é a soma de todos eles.
É quase impossível quantificar o papel dos imigrantes na vida brasileira. Todavia, é fácil perceber que sem eles o Brasil teria hoje um perfil diferente. O que se pode considerar marcante, porém, notadamente em relação aos imigrantes europeus, foi a integração, complicada sem dúvida, mas que ocorreu de modo quase natural, de forma tal que eles, somando-se aos europeus que vieram para cá desde a descoberta, aos africanos trazidos como escravos e que igualmente conquistaram seu espaço, aos índios, que já se encontravam na terra antes mesmo da chegada das Caravelas portuguesas, foram criando esta nova civilização, chamada de brasileira.
A presença dos japoneses neste quadro, que começa em 1908 com a chegada dos primeiros imigrantes oriundos da Terra do Sol Nascente, produziu uma outra realidade. Trouxeram para esta nova terra uma cultura diferente. Só é possível imaginar as preocupações que tiveram diante do desafio que era o de chegar a um outro país, quase como se fosse a um outro mundo, totalmente diferente daquele em que nasceram e cresceram, enfrentando imensas dificuldades de adaptação.
Mas a tenacidade com que encararam todos os problemas, verdadeiro traço distintivo de um povo corajoso, os fez mais que vencedores. Àqueles que chegaram em 1908 foram se unindo outros, todos trazendo a mesma coragem e disposição. Com raro destemor, venceram. Noventa anos depois da chegada dos primeiros imigrantes - um tempo tão curto em termos históricos, mais ainda em cotejo com a milenar História do seu Japão de origem -, eles conseguiram não só o respeito, a admiração, a gratidão pelo que fizeram ao Brasil. Foram além: como os outros imigrantes, também se integraram e ajudaram a formar esta única raça brasileira, soma de anseios e origens, resultando numa civilização que conhece seu destino e que sabe que vai atingi-lo, aproveitando precisamente o melhor de cada uma das culturas que foi forjando este povo.
Um dos mais importantes fatos da festa que se realiza em Rolândia, marcando os 90 anos da imigração japonesa, é justamente este: a pluralidade que se produziu entre nós, na junção do trabalho, dos sonhos, das esperanças e da dedicação de seres oriundos de tão diferentes pontos do planeta e que, no Brasil, potencializaram seus anseios e ajudaram a construir uma civilização nova e pujante. O Brasil de hoje, ainda em busca de um destino melhor para sair do duro fosso do subdesenvolvimento, tem em si mesmo o germe da própria redenção, que é o resultado desta soma. Japoneses, italianos, portugueses, poloneses, gente de todos os continentes que se encontrou aqui, sob o Cruzeiro do Sul, e está realizando um fantástico trabalho. Ao louvor que se faz aos imigrantes japoneses há de se incluir o reconhecimento a todos os imigrantes que, com seus descendentes, constroem este Brasil de todos nós.





