Editorial - Histórias de agosto
Histórias de agosto
Há 45 anos, no dia 24 de agosto, o Brasil enfrentava o epílogo de uma das mais graves crises políticas que vivenciou, com a morte do então presidente Getúlio Vargas. O suicídio de Vargas representou a solução inesperada para uma situação surgida, de fato, com a própria eleição dele, em 1950, que foi se tornando cada vez mais grave, devido a fartas denúncias contra o governo, e que culminou com o assassinato, no começo daquele agosto, do major Ruben Vaz. O oficial havia sido designado pela Aeronáutica para proteger o jornalista Carlos Lacerda, a voz mais forte contra Getúlio, e acabou morrendo no atentado que visava o adversário do presidente. O crime (e a investigação posterior comprovou que o atentado foi preparado pela segurança do então presidente) acabou por criar uma situação insustentável para Getúlio. Exigia-se a renúncia do presidente ou, ao menos, seu afastamento até que as denúncias todas fossem investigadas. Getúlio Vargas não aceitou a pressão e, praticamente sem antever outras opções, até porque muitos de seus antigos aliados o abandonaram, acabou por tirar a própria vida. Seu gesto refletiu-se no País inteiro. O povo, quase sempre manipulado, emocionou-se. Os adversários de Getúlio (Lacerda inclusive) tiveram de se esconder. E foi com emoção intensa que o Brasil sepultou Vargas.
Menos de meio século depois, o Brasil volta a viver uma intensa agitação política. E, curiosamente, nesta semana a oposição projeta uma grande manifestação em Brasília, reclamando, entre outras coisas, a renúncia do presidente Fernando Henrique Cardoso. Não existe hoje o clima emocional de 54, nem FHC carrega a dura herança de Getúlio Vargas, que nos anos de sua última presidência enfrentou os inimigos que havia feito ao longo do período em que foi o ditador (de 30 a 45). Entretanto, é válido perceber que o mesmo gesto que os adversários exigiam de Vargas, naquela época, é reclamado hoje do atual presidente: a renúncia.
Renúncia é ato unilateral de vontade. Não é fruto de pressão externa. O Brasil, em sua história política recente, já teve uma (a de Collor, para evitar o impeachment, não vale). Foi a de Jânio Quadros, eleito em 1960, e que renunciou à presidência em 1961, também em agosto amanhã, aquele gesto completará 38 anos. As consequências daquilo, ainda hoje são sentidas. Foi a renúncia de Jânio que deflagrou a crise que, três anos depois, mergulharia o Brasil na ditadura. Foram necessários 21 anos, e muito sofrimento, para que o País emergisse daquele duro período, com o povo retomando o destino em suas mãos.
Não faz muito tempo que a democracia se reimplantou. Neste período, houve um presidente eleito indiretamente e outros dois escolhidos pelo voto. O primeiro deles acabou sendo apeado do poder, após ação do Congresso. E o outro, o atual presidente, enfrenta agora um tipo de pressão que, em muitos casos, lembra o passado. É oportuno rememorar os eventos que fizeram a História recente deste país, até como lição. Vale lembrar sempre a correta assertiva segundo a qual os povos que não aprendem com os erros do passado correm o risco de repeti-los. Vargas foi legitimamente eleito e poderia (como aconteceu com Fernando Collor) ser afastado do cargo pelos caminhos legais. Fernando Henrique Cardoso foi eleito e reeleito e, neste momento, mostra fraqueza e insegurança, questões graves, mas que não são passíveis de impeachment. A radicalização que se percebe na manifestação de alguns segmentos não corresponde sequer à necessidade do momento. O Brasil não precisa de mártires e, menos ainda, de quebras no ritmo constitucional democrático. As lições de outros agostos precisam ser aprendidas agora.





