Editorial - Guerra de palavras
O desemprego, maior problema que o mundo enfrenta, não será resolvido por discursos candentes, por frases altissonantes nem por anúncios enfáticos de guerra, como o feito pelo presidente Fernando Henrique Cardoso na reunião com alguns ministros. O preocupante, porém, é a percepção que se evidencia diante desta convocação, ainda mais porque acompanhada da informação de que na reunião ministerial de amanhã não haverá nenhum anúncio sobre qualquer nova medida de impacto. O que se percebe é um vazio de idéias ou intenções, quase um tipo de proposta de campanha eleitoral, o que pode ser entendido porque o presidente está na batalha pela reeleição. Todavia, como quem lança este novo mote é o titular do Governo, as dúvidas são maiores. Afinal, do Governo se espera medidas e não palavras de ordem ou chamamentos sem qualquer tipo de arma ou munição.
As informações do porta-voz da presidência, Sérgio Amaral, são ainda mais desanimadoras. Segundo ele, a reunião ministerial vai avaliar se o que existe está bom ou não, se precisa ser corrigido ou aperfeiçoado. Ora, diante da realidade nacional, dos números crescentes do desemprego revelados inclusive por órgãos oficiais, como o IBGE, parece estupidez indicar que os ministros vão ver se o que existe está bom ou não. Não está. Se estivesse, o problema não teria atingido este nível. E o que se precisa, como qualquer pessoa pode perceber, é de atos concretos, de trabalho efetivo, de disposição honesta por parte de todos no sentido de efetivamente enfrentar este desafio.
O presidente da República tem alguma razão quando diz que o problema não é só do Governo. Entretanto, como no Brasil a interferência oficial é enorme, é facilmente perceptível que sem medidas objetivas a partir da área oficial pouco ou nada poderá ser feito. A iniciativa privada, na verdade, tem feito o possível nas circunstâncias atuais. Os brasileiros, cada vez mais conscientes de suas obrigações e direitos, igualmente têm batalhado com muita disposição na busca de melhores situações de vida. Mas o grande nó continua a ser o da área oficial, que é lerda nas decisões e dificulta as soluções.
Mostrando percepção sobre o assunto, o presidente Fernando Henrique Cardoso assinalou que o desemprego pode ser enfrentado de duas formas: por meio do desenvolvimento e pela melhoria da educação. Embora não tenha citado também a necessidade de mudanças na legislação trabalhista, notadamente quando, como no Brasil, ela dificulta a criação de empregos e a melhoria salarial, o chefe da Nação ressaltou a aprovação do contrato de trabalho por tempo determinado, assinalando que outras alterações serão feitas. Deixou, porém, esta promessa no ar, como tantas outras coisas. De qualquer modo, se FHC sabe que uma política de desenvolvimento é vital para enfrentar o desafio do desemprego, tem de perceber que seu Governo está errando ao adotar uma linha que é francamente recessiva.
O Governo precisa partir para uma diretriz capaz de aquecer a economia, começando com uma disposição mais concreta de baixar os juros e com uma determinação ainda maior no sentido de conter o déficit público. Igualmente uma política de incentivos aos investimentos produtivos, até com redução em alíquotas de impostos, serviria para propiciar uma injeção real em qualquer plano contra o desemprego. Ficar, porém, na análise superficial do assunto, como se percebe diante do bombástico, mas vazio, anúncio da guerra ao desemprego não apenas revela falta de coragem ou vontade. Mostra uma face demagógico-eleitoreira que não é aceitável em um Governo sério em busca da reeleição.





