A grita nacional que se produziu diante do anúncio da manutenção de privilégios para magistrados e parlamentares, no bojo da reforma da Previdência que está tramitando no Senado, provocou reação junto aos próprios meios políticos. Até por isto, o Senado pode votar hoje projeto no sentido de alterar o Instituto de Previdência dos Congressistas, reduzindo parte das vantagens que originalmente foram mantidas. Também a situação dos magistrados deve ser reexaminada e é importante observar que membros do Judiciário também se mostraram indignados com esta situação, criticando os próprios privilégios. Há, percebe-se, conscientização pouco maior do que no passado, ao lado de uma vigilância dos meios de comunicação, o que, sem dúvida, serve para esclarecer o povo, que como detentor do poder não pode ser tão explorado e enganado.
Seria oportuno observar que a preocupação dos parlamentares em manter situação melhor que a do povo que os elege constitui um tipo de atitude absolutamente inaceitável. De fato, a democracia supõe situação de igualdade que a adoção de privilégios descaracteriza. Ademais, quando os detentores do poder aprovam medidas em benefício próprio, isto constitui abuso incontestável, que não poderia ser sequer concebível sob os padrões da legítima representação democrática. Ademais, é também interessante perceber que o esforço dos parlamentares em conseguir benefícios que não podem ser usufruídos pelo povo representa, igualmente, um tipo de admissão da injustiça que existe em relação aos trabalhadores em geral.
Importa, entretanto, observar que a transparência das decisões, que ocorre em função da própria liberdade democrática em vigor, está levando ao crescimento da consciência de cidadania, que em alguns momentos parece esquecida. E o exercício da cidadania, é interessante relembrar, não se faz apenas na luta pela manutenção da estabilidade da moeda, mas principalmente com atenção permanente e contínua do povo em relação ao que estão fazendo, em seu nome, os que o representam. Já passou o tempo de se olhar a política como atividade espúria, num ambiente em que todas as negociatas acabam sendo, pelo menos, justificadas. A hora é de se chamar a população a permanente processo de atenção, sem demagogia paternalista, tornando-a participante mais ativa do processo de governo.
O grande equívoco, alimentado precisamente por aqueles maus políticos, é o de que o povo só tem condições de interferir na gestão governamental nas eleições, ficando depois disto afastado das decisões. Foi outra idéia, a grande mobilização nacional, em plena ditadura, que levou à redemocratização. Do mesmo modo, a participação popular firme representou fator fundamental quando do afastamento do presidente Fernando Collor, levado à renúncia por ter percebido que acabaria apeado do poder diante da reação pública à divulgação dos esquemas de corrupção em seu governo. E é esta mesma reação, embora em ponto bem menor, que está fazendo o Senado reexaminar a questão dos privilégios concedidos aos parlamentares e magistrados.
A participação do povo no processo de governo que está ocorrendo no Brasil, nos últimos anos, representa avanço incontestável e garante o fortalecimento da democracia. A continuada presença do povo no meio das discussões, o inconformismo ante os abusos e uma postura permanentemente atenta constituem fatores vitais para que efetivamente sejam extirpados os maus hábitos que desde os primórdios marcam a vida republicana brasileira.

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