Editorial - Greves e governos
As imagens que mostram milhares de trabalhadores promovendo manifestações nas principais cidades do Paraná e do País são, por si, preocupantes. Os fatos ainda pioram o quadro porque se está diante de uma série de paralisações, envolvendo tanto funcionários públicos estaduais quanto federais, atingindo setores da maior importância, como a educação, a saúde, a energia elétrica, a segurança. É uma situação assustadora, mais ainda quando se sente a falta de sensibilidade por parte dos governos, dando a impressão de uma verdadeira queda-de-braço entre as partes, um endurecimento de posições que não augura nada de bom. Curiosa é a postura do governo federal, expressa pelo próprio presidente Fernando Henrique Cardoso quando disse que não vai negociar com grevistas. Cria-se uma situação complicada porque o Executivo Federal não tem se mostrado disposto a negociar em circunstância alguma. Há anos o funcionalismo federal, isto é, a parcela dos que ganham menos e que realmente trabalham, não tem reajuste, embora a inflação tenha persistido mesmo depois do advento do Real. É válido rememorar que levantamentos feitos por órgãos confiáveis indicam que, de modo geral, o salário do brasileiro está caindo. No caso, o do funcionalismo federal está no fundo do poço.
Tanto a União quanto os Estados se escudam no déficit público e nas leis que regulamentam os gastos com o funcionalismo, justificando uma política que acaba punindo o trabalhador, condenando-o a uma situação de penúria que vai aumentando a cada dia a faixa dos miseráveis. Seria uma alegação aceitável não se tivesse assistido, recentemente, à grande luta para estabelecer o novo teto salarial do governo, com uma batalha verdadeiramente vergonhosa dos privilegiados lutando para manter suas posições. Para um governo que alega falta de recursos, fica difícil entender a manutenção, por exemplo, do famoso teto duplex, que garante a uma pequena parcela até o dobro do teto oficial, em função de aposentadorias gordas que foram criadas para beneficiar alguns. Justificar tudo isto com as conhecidas alegações sobre direito adquirido não esconde a realidade de um grupo que suga o erário, como uma casta privilegiada, enquanto a população segue seu destino de sacrifícios e sofrimentos.
O novo pacote argentino, entre outras coisas, reduz salários de faixas mais elevadas. O presidente Fernando Henrique Cardoso já adiantou que não pretende imitar a decisão platina e, seguramente, não o faria mesmo porque não parece disposto a enfrentar os privilegiados. Ademais, e isto também não pode ser esquecido, a Justiça tem amparado o direito adquirido dos que ganham inacreditáveis aposentadorias e vantagens, o que provoca dúvidas junto à sofrida população. Percebe-se uma política de dois pesos e duas medidas, com privilégios que, em uma democracia, são inaceitáveis. A resultante disto é esta insatisfação que gera greves, protestos, manifestações e, por extensão, preocupações porque, no fim, é o povo quem acaba sofrendo os piores efeitos de tudo isto e quem vai acabar pagando todas as contas.
Diz-se, com muita propriedade, que o totalitarismo deixa vícios difíceis de extirpar, mesmo com a redemocratização. É o que se percebe no Brasil de hoje com governantes mantendo a mesma postura ditatorial, impondo decisões e sacrifícios, sem levar em conta o sofrimento da população. Na democracia, existe um governo do povo. Pela forma abusiva como agem os governantes, desde a imposição de um salário mínimo de fome até ao congelamento de vencimentos das parcelas mais carentes do funcionalismo, o que se percebe, basicamente, é o abismo entre o povo e seu governo.





