Greve dos caminhoneiros
Só nos regimes democráticos é que a greve é legalizada e possível, o que é até natural. Afinal, democracia supõe liberdade. Entretanto, há quem não entenda que a liberdade democrática não constitui condição para que se faça o que se queira, sem levar em conta a situação geral. A liberdade democrática exige também responsabilidade e só existe de fato quando em um clima em que o direito de todos seja observado. Isto fica bem evidente a partir do conceito segundo o qual a liberdade de um acaba onde começa a de outro. Naturalmente, todos estes conceitos e os choques que surgem no seu exercício provocam discussões que devem ser resolvidas através dos adequados instrumentos democráticos, entre os quais o da Justiça. É certo que quando determinada categoria resolve ir à greve, que deve ser o último recurso, em defesa de seus direitos, haverá alguns prejuízos para algumas das partes envolvidas.
O Brasil está enfrentando esta semana uma forte greve deflagrada por motoristas de caminhão que reclamam reajuste dos fretes, redução da tarifa dos pedágios, melhoria das rodovias, entre outros pontos. São apelos justos. Todavia, as consequências do movimento estão se fazendo sentir em quase todo o País, com desabastecimento geral, perdas enormes, além de se viver em temor diante de uma situação que assusta em si. Que o Brasil é altamente dependente do transporte rodoviário se sabe. E que os motoristas de caminhão têm fortes razões em seus apelos, nem se discute. Do mesmo modo, uma vez cumpridas todas as exigências legais, têm o direito de fazer a greve.
Aqui, porém, começam a surgir alguns problemas, a partir mesmo de certa atitude visando forçar a participação no movimento, o que vai contra a liberdade dos que, por qualquer razão, não querem aderir. Mais grave ainda é a atitude frontalmente ilegal de fechar rodovias, impedindo o tráfego, o que representa um abuso efetivo diante dos próprios conceitos democráticos. E, ontem, no Rio, os caminhoneiros em greve, parados diante da refinaria Duque de Caxias, impediram a passagem de um comboio de caminhões da BR Distribuidora, que retirava cerca de 500 mil litros de combustível da refinaria. A retirada do produto foi autorizada por uma liminar, mas eles resolveram não acatar a determinação da Justiça.
A resultante disto tudo é uma situação absurda, que pode degenerar rapidamente se a autoridade adotar as medidas cabíveis para fazer valer o direito dos que não estão envolvidos no movimento. O que ainda está evitando um agravamento do quadro é a atitude mais ou menos apática (ou medrosa) das autoridades diante dos bloqueios de estrada. Se em dado momento governos estaduais resolverem colocar em ação forças de choque, será grande o perigo de confrontos sérios com todas as consequências decorrentes.
Não é o que se deseja, mas é fundamental que os líderes deste tipo de movimento percebam que estão indo além do aceitável, inclusive em termos democráticos de liberdade. Não seria necessária uma mobilização desse naipe para se saber da importância do transporte rodoviário. E nem é sufocando o país que os motoristas vão conseguir apoio às suas reivindicações, algumas das quais (como as relativas ao pedágio e, principalmente, às condições das estradas) merecendo apoio generalizado. De qualquer modo, o que é imperioso é que haja, por parte das lideranças da greve, uma postura mais aberta a fim de que seja possível restabelecer o tráfego de caminhões (e dos outros meios de transporte). Se isto não acontecer rapidamente, a situação em alguns Estados - que já enfrentam sérios problemas - pode se agravar demais, levando o povo e exigir até uma ação mais firme de suas autoridades.

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