Enquanto o presidente dos Estados Unidos afirma, em sua visita ao Brasil, que ‘‘a globalização é irreversível’’, representantes de agricultores e vários organismos do Terceiro Mundo anunciavam, em Genebra, um movimento mundial contra a globalização da economia e o livre mercado. O movimento, chamado Ação Popular Global (APG), será levado à base de encontros e manifestações de rua e terá como ‘alvo de batalha’, disseram os líderes, a Organização Mundial do Comércio (OMC) e as grandes corporações multinacionais.
Um dos líderes, Sergio Menendez, do grupo alemão Play Fair Europe, diz que ‘‘a missão do movimento será atrair trabalhadores, agricultores, jovens e estudantes de todo o mundo para a luta mundial contra o neoliberalismo e o livre comércio’’. Menendez prometeu levar manifestantes a Genebra e outras capitais durante a próxima conferência da OMC na Suíça, marcada para maio do próximo ano e na qual estarão presentes vários chefes de Estado, incluindo o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton. ‘‘Faremos com que eles sintam (o protesto) na pele’’, disse, acrescentando que serão manifestações não-violentas.
Manifestações políticas desse teor aconteceram em inúmeros países do Terceiro Mundo durante as décadas de 50 e 60 e em alguns países do Primeiro Mundo também por essa época. Há 30 anos, pelo menos, não se ouve mais falar em ‘yankes go home’ ou ‘fora Tio Sam’ e outras coisas do gênero. De modo que, em certo sentido, o movimento APG é novidade. É novidade também o motivo da grita: se antes o alvo era um só - o imperialismo americano -, agora é múltiplo e vasto. O movimento é contra a economia mundial e não faz concessões.
Num documento distribuído, os líderes dizem ter o apoio de organizações da Ásia, África e América Latina, inclusive Brasil. E lá está, entre os fundadores da APG, o Movimento dos Sem Terra. Sim, o MST brasileiro, que, agora se sabe, não quer só assentamento e reforma agrária. Também há um certo Movimento do Povo Ogoni Nigeriano (MOSOP), um grupo indígena norte-americano, uma organização da Nova Zelândia e um movimento de mulheres da Ucrânia.
A luta antiimperialista do passado se deu no âmbito da guerra fria, que não existe mais. Também se situou no centro de uma ebulição ideológica que fazia irromper movimentos armados por todas as partes do mundo, na China de Mao (com as Guardas Vermelhas), no Sudeste Asiático, na América Central, na América do Sul, na África e mesmo na Europa (com o Baader Meinhof alemão e as Brigadas Vermelhas italianas, sem contar o Ira irlandês e a Eta basca). Outra diferença importante é que havia partidos políticos grandes, organizados e transnacionais envolvidos no movimento. Os saudosistas podem lamentar que, agora, não será a mesma coisa.
O fracasso do comunismo na Europa Oriental e as mudanças estruturais em seu último reduto, a China, mostram que o mundo quer soluções democráticas para seus problemas econômicos, sociais e de soberania. O protesto, obviamente, é democrático, mas o conteúdo proposto por essa APG - a simples luta contra a globalização das economias nacionais - é, numa palavra, ridículo. Só merece atenção, aqui, porque há um grupo brasileiro entre seus fundadores. E deve-se dizer que supostamente à esquerda do espectro político, mas visceralmente à direita da nova revolução que se opera no mundo.
É legítimo questionar o tipo de globalização proposto pelo presidente norte-americano Bill Clinton e outros líderes dos países desenvolvidos. Mas tentar, como sugere esta nova organização, investir contra a abertura mundial das economias nacionais é um retrocesso chocante. É preciso lutar para que a promoção do ser humano seja o centro de toda a atividade econômica, mas ninguém está autorizado por isso a perder o senso.

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