Editorial - Fragilidade no poder
Em face da aparentemente insolúvel crise que ameaça derrubar a Rússia e levar consigo, de roldão, as chamadas nações emergentes, analistas políticos assinalam que antes de tentar resolver os problemas econômicos, os russos precisam solucionar a questão política. A idéia central é uma só: o que está abalando aquele país é o vazio de poder, provocado por uma liderança instável, a do presidente Boris Yeltsin, e complicado pela pressão de um Parlamento de maioria oposicionista que se mostra disposto a qualquer coisa, até mesmo levar o país à bancarrota para alijar o líder do cargo. Para complicar a equação, enquanto Yelstin se mostra fraco e verdadeiramente indeciso, a oposição não apresenta algum tipo de opção capaz de resolver a situação. Os comunistas, que representam o passado, derrubado no processo que acabou com a União Soviética, não oferecem alternativa capaz de produzir confiança, em especial externamente.
Há um completo vazio de poder neste momento, que está na raiz desta crise e que progressivamente vai provocar uma piora na situação em questão de dias, afirmou Philip Poole, chefe de pesquisa sobre países emergentes europeus do ING Barings, em Londres. O caos econômico na Rússia é apenas o sintoma de uma crise política profunda, que se intensificou quando o presidente Boris Yeltsin demitiu o gabinete, no poder há 4 meses, e readmitiu Victor Chernomyrdin, que já havia ocupado o cargo por cinco anos. A comunidade internacional saudou publicamente o retorno do veterano primeiro-ministro, que tem uma sólida reputação de reformista. Mas seu tradicional estilo devagar e sempre, assim como a expectativa de que será obrigado a fazer concessões políticas à oposição, vem preocupando até mesmo aqueles que o defendem.
Os apelos de todo o mundo para que a Rússia realize o mais rápido possível as tão esperadas reformas de austeridade e ataque os problemas estruturais de sua economia, continuam. Mas um crescente número de especialistas afirma que as medidas de longo prazo - incluindo a adoção de uma nova política monetária -, não poderão ser implementadas diante do vazio de poder no Kremlin. Basicamente, existe a percepção de que sem comando, não haverá condições para restabelecer a confiança interna. O pior é que o agravamento da crise provoca temores e tremores em outros países.
O que é válido destacar, porém, é que a situação russa atual, como a crise que recentemente atingiu o Japão, assim como as dificuldades observadas em outros países da Ásia (caso da Indonésia), foram fatos acompanhados ou precedidos de crises políticas. No Japão, o governo caiu, na Indonésia há uma longa história de totalitarismo e corrupção, poucos dos chamados tigres da Ásia passam pelo crivo da honorabilidade. A falta de liderança política, a corrupção desenfreada - que também vem se registrando na Rússia -, constituem elementos básicos para os descalabros subsequentes. E isto é importante até para se afastar de vez os nefastos augúrios sobre o possível reflexo da crise externa sobre o Brasil. Hoje, dentro desta globalização que se vive, a dificuldade de um mercado se reflete sobre outros. Mas é certo que países com estrutura de poder sólida, vivendo estabilidade interna, possuem meios mais efetivos para enfrentar a crise. O perigo, que existe, reside mais na ação dos especuladores. Mas é precisamente a firmeza interna que possibilita a convicção de que o furacão econômico que atinge países como a Rússia pode chegar ao Brasil na forma de uma tempestade suportável.





