Fracasso em Seattle
Não foram os protestos, as manifestações, a mobilização de entidades chamadas não-governamentais os responsáveis pelo fracasso da III Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), realizada em Seattle e convocada com o elevado objetivo de lançar bases sólidas para um melhor relacionamento mundial no comércio entre as nações. O encontro não atingiu nenhuma de suas metas devido à postura cínica dos chamados países mais ricos, que insistiam nas antigas fórmulas de predomínio, tentando impor restrições aos concorrentes ao tempo em que lutavam para manter suas vantagens. Faltou ali o item principal em qualquer tipo de negociação digna deste nome: a vontade dos participantes de encontrar caminhos, com concessões mútuas e um esforço honesto para modificar um quadro que insiste em ser idêntico ao de tempos antigos. O que se percebe facilmente nas dificuldades para a obtenção de acordos sérios de comércio é que espírito de política colonialista dos chamados ‘grandes’ do mundo, que predominou por muito tempo na Terra e que teve fim apenas depois da II Guerra Mundial, não foi superado no terreno econômico. Os mais ricos querem continuar em sua posição. O problema é que insistem em manter os instrumentos de pressão que fazem parte de uma longa história e que têm de ser superados para que o mundo possa entrar em uma nova era nas relações comerciais.
Faltou vontade e seriedade. A denúncia do presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, contra alguns países pelo uso continuado do trabalho infantil, que pode dar a idéia de uma visão humanista do líder da maior potência do planeta, não chega a esconder os interesses internos da indústria de seu país, que enfrenta a pressão externa com dificuldades. Até mesmo o aparentemente bem intencionado discurso em defesa de normas trabalhistas mais humanas tem pouco a ver com um interesse legítimo pela situação dos trabalhadores em países menos desenvolvidos, estando mais ligado a problemas internos em países nos quais o trabalho é, efetivamente, melhor remunerado. O que falta para dar a este tipo de acusação o tom de interesse real é uma visão mais ampla da realidade de cada país e, principalmente, a disposição em propiciar condições melhores para todos os envolvidos.
O que se teve, afinal, não é uma surpresa. O presidente norte-americano, que dizia querer transformar o encontro em um marco definitivo, na abertura para uma nova era nas relações comerciais entre os povos nesta véspera de novo milênio, não conseguiu sequer convencer seus parceiros mais próximos, o que é também compreensível. Os Estados Unidos, com o fim do império soviético, se tornaram, de fato, a única potência mundial. O fato de outras nações possuírem arsenais bélicos chega a ser irrelevante no quadro mais geral da situação mundial. O poderio norte-americano, hoje, não se situa apenas no arsenal militar, mas em toda sua estrutura. E é natural que os norte-americanos pretendam manter e ampliar esta hegemonia, embora no campo comercial enfrentem fortes desafios.
O interesse individual dos Estados Unidos colidiu com os dos outros países. A falta de uma concreta disposição de negociar (o que implica em concessões mútuas) dava desde logo a certeza de que seria quase impossível um acordo efetivo. Pior é que após este fracasso, os caminhos que restam não oferecem alternativas muito satisfatórias. Cada país terá de usar seus próprios meios para lutar numa batalha em que os mais pobres, naturalmente, têm também os menores recursos. A falta de entendimento em Seattle, saudada com euforia pelos que se opunham ao encontro, deixa preocupações sobre o futuro das relações comerciais no mundo.

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