Editorial - Força da agricultura
Uma safra 10% maior no biênio 98/99 e a possibilidade de atingir 100 milhões de toneladas de grãos no ano 2000, duas projeções do ministro da Agricultura, Francisco Turra, apresentadas precisamente quando se anuncia que os números finais da safra 97/98 tiveram redução de 0,6% de produção e 4% de área plantada, atingindo 77,9 milhões de toneladas. A reação natural diante deste otimismo, principalmente com números que indicam queda de produção, é de alguma perplexidade. Pode até haver a impressão de uma tentativa de, com estas previsões positivas, minimizar os problemas causados pela produção inferior à do ano passado.
O ministro Turra, porém, apresenta alguns fatos para embasar este otimismo, além de ter justificativas para o resultado da safra que está findando. Com efeito, ocorreram alguns sérios problemas climáticos que prejudicaram a produção. Por outro lado, a informação sobre a regularização nos débitos de 600 mil famílias, o que permitirá que voltem a produzir, serve como elemento capaz de sustentar parte da previsão positiva. Naturalmente, é preciso mais que isto, importa que o governo volte sua atenção real para o campo, oferecendo apoio em todos os sentidos, desde o empréstimo à pesquisa.
A realidade que salta aos olhos é a de que a previsão de atingir, no último ano do século, uma produção de 100 milhões de toneladas de grãos não é impossível. Ao contrário, mesmo sem um aumento na área plantada, isto é plenamente possível. O Brasil continua a ser um dos poucos, senão o único, países do mundo que tem imenso potencial produtivo, com áreas agricultáveis ainda sequer tocadas e com outras, já desenvolvidas, que não atingiram seu potencial. Produzir mais é apenas uma consequência de um trabalho sério de estímulo à agricultura, sob os mais diferentes aspectos.
Adicionalmente, há outros fatores positivos na atual situação. Os estoques públicos de grãos estão no mais baixo nível dos últimos 10 anos. Esta notícia que, conforme o presidente da Companhia Nacional de Abastecimento, Eugênio Stefanelo, não é das melhores para o consumidor - já que, dentro das leis do mercado, indica elevação nos preços -, é boa para o produtor, que sente maior garantia até para aumentar a área plantada. É certo que produção maior poderia, em certo sentido, ser considerada negativa para o produtor, exatamente porque aumenta a oferta e pressiona os preços. Mas a situação do Brasil - e do mundo - no que tange aos alimentos oferece uma outra leitura: há enorme necessidade de comida para alimentar uma crescente população planetária.
Naturalmente, se um país dobrasse sua produção de um ano para outro haveria problemas de preço. Mas não é disto que se trata. O aumento de 10% na produção da próxima safra e crescimento similar na seguinte - o que levaria aos 100 milhões de toneladas previstos para o ano 2000 pelo ministro -, não representarão um resultado capaz de aviltar os preços. A população brasileira teria possibilidade de consumir tudo o que se projeta produzir, desde, é claro, que não lhe faltassem condições financeiras. E o grande segredo de tudo é que, ao aumentar a produção, o campo gera mais empregos, cria mais possibilidades a que os brasileiros possam, de fato, consumir. Forma-se o grande círculo positivo que precisa ser mantido e estimulado. E há, também, o mundo. Milhões passam fome. E o Brasil pode perfeitamente produzir o suficiente para si e para os outros. É só trabalhar nesse sentido com a disposição que parece manifestada pelo ministro da Agricultura.





