Final previsível
Doze semanas depois do início dos bombardeios da Otan, anuncia-se um acordo para a paz na Iugoslávia. Centenas de milhares de pessoas foram jogadas fora de suas casas, obrigadas a fugir; um número, que jamais será determinado, de civis morreu; milhares de pessoas foram brutalizadas; os prejuízos são incalculáveis. E, depois de tudo, a Iugoslávia aceita aquilo que tinha sido proposto como alternativa para evitar precisamente a ação bélica, considerada necessária pela Otan, que pretendia representar a consciência mundial diante das atrocidades que vinham sendo cometidas pelos militares iugoslavos em Kosovo.
As denúncias de genocídio contra a população de origem albanesa não são recentes. Infelizmente, toda aquela região que formou, até 1980, a República da Iugoslávia, tem uma lamentável tradição de limpeza étnica. Josip Broz Tito, que governou o país desde o fim da ocupação nazista, em 1945, com o final da 2ª Guerra, manteve unidos vários povos, usando o jugo de uma tirania idêntica à existente nas repúblicas que formavam a União Soviética. Com a morte de Tito, esboroou-se a Federação, ressurgiram as antigas guerras entre os grupos que a formavam. E surgiram novas nações - a Croácia, a Eslovênia, a Macedônia, a Bósnia -, ficando só Sérvia e Montenegro a formar a nova República Iugoslava. Muitas lutas aconteceram até que surgissem os novos países, houve denúncias de genocídio em várias oportunidades e há um elevado número de militares sendo julgado por crimes contra a humanidade, na época.
Kosovo seria apenas mais um episódio de atrocidade, não fosse o fato de ser uma província e não um estado-membro de uma federação. Outro complicador é o fato de que Kosovo habita o imaginário sérvio como o berço de sua civilização. É onde estão monumentos centenários, como monastérios da religião ortodoxa, e onde ocorreu a Batalha de Kosovo, em 1389, quando os sérvios foram derrotados pelos turcos, que dominariam a região por cinco séculos. A propaganda do governo de Slobodan Milosevic faz um paralelo entre esse fato histórico e o conflito com a Otan, acirrando o sentimento nacionalista. Até a Segunda Guerra, a Província tinha maioria sérvia. Mas Tito incentivou a migração de albaneses para Kosovo. Em 1989, o presidente da Iugoslávia, Slobodan Milosevic, retirou a autonomia de Kosovo, o que estimulou a luta pela independência. Desde então, ele tem sido acusado de promover uma ‘‘limpeza étnica’’, matando e expulsando a maioria albanesa, o que lhe valeu inclusive um indiciamento pelo Tribunal de Haia. Em março, Belgrado recusou a autonomia para a região e o envio de forças de paz internacionais. E foi então que os ataques da Otan começaram.
Agora o governo da Iugoslávia aceita a proposta rejeitada há 3 meses, determinando a retirada de suas tropas de Kosovo e permitindo a entrada de uma força multinacional para garantir a integridade dos albaneses étnicos. E, por incrível que possa parecer, o presidente Slobodan Milosevic se apresenta como herói, garantindo que conseguiu uma grande vitória: manter Kosovo na Iugoslávia. De fato, há muitos kosovares-albaneses que querem não a autonomia, mas a independência. E isso não foi assegurado pelo acordo firmado. Todavia, é certo que o que se obteve era o mínimo reclamado nos meses que antecederam a decisão da Otan de atacar a Iugoslávia, para pressionar o governo de Belgrado a aceitar uma presença militar internacional a fim de proteger os albaneses de Kosovo. As mortes, o sofrimento, a destruição, tudo poderia ter sido evitado, houvesse bom senso e elevação. Não houve. E, lamentavelmente, os mesmos que fomentaram a guerra seguem liderando e posando de vencedores. É um triste final.

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