Editorial - FHC sabe o caminho
O presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem, em discurso na cerimônia de abertura simbólica da safra 98/99, em Formoso do Araguaia, Tocantins, que a produção agrícola prevista para a safra deste ano vai reduzir o custo da alimentação. Além do aumento da produção agrícola, o presidente enfatizou a convicção de que a população também ajudará no combate à inflação. Quem fica apostando que a inflação vai disparar, deveria percorrer o Brasil para ver que, por mais que os especuladores queiram isso, o povo vai se recusar a pagar altos preços, pela abundância da oferta agrícola e discernimento da população. O povo não vai cair na conversa do especulador que queira aumentar o preço sem razão. Vamos dizer não à inflação, produzindo mais, cuidando para que não haja exploração, acrescentou. Ele lembrou que a produtividade agrícola do Brasil é igual à dos Estados Unidos, e que no caso da soja é até superior à produtividade americana.
É alentadora a percepção de que o presidente sabe da resposta para as atuais dificuldades. O problema, porém, é que este aparente reconhecimento do papel que a lavoura pode exercer, não só na luta contra a carestia, mas também na solução de muitas das mais graves dificuldades que o País enfrenta, não se consubstancia em uma ação mais concreta de apoio à agricultura. A presença do sr. Fernando Henrique Cardoso na solenidade de início da colheita, chegando a dirigir uma colheitadeira de arroz, é sem dúvida valiosa. As imagens relativas ao evento têm enorme impacto, mas isso é pouco. Vale rememorar o comentário publicado ontem, nesta mesma página, de autoria do presidente da Sociedade Rural do Paraná, sr. Francisco Galli, reclamando da discriminação à agricultura e apontando aquilo que tanto tem sido repetido, mas que até agora não mereceu atenção: o fato de que se o Brasil se voltar com firmeza para o campo, apoiando a produção, em pouco tempo os mais sérios problemas que o País enfrenta poderão ser resolvidos.
A FAO, organismo da ONU que atende a questões ligadas à agricultura e alimentação, acaba de lançar um novo alerta, indicando que o impacto prolongado causado por severas perturbações meteorológicas e a agitação nos mercados financeiros mundiais são as grandes ameaças que pesam sobre a produção de alimentos no mundo. Uma das lições mais importantes de 1998 é que um choque macroeconômico pode ter sobre a segurança alimentar consequências tão graves quanto as catástrofes naturais, avaliou Abdur Rashid, chefe do Sistema Mundial de Informação e Alerta Rápido sobre Alimentação e Agricultura da FAO. Segundo informe do organismo, apesar dos anúncios otimistas feitos internamente, no Brasil - como na Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile - a colheita 1998/99 será inferior à média, por causa da limitação das quantidades semeadas e do clima desfavorável. E é possível completar: também pela falta de uma política que de fato esteja voltada para o estímulo ao produtor.
Falta trabalho, falta comida. Estes são, sem dúvida, os maiores desafios do Brasil e do mundo. No entanto, a solução de um problema também representa o encaminhamento para o outro. O apoio à produção agrícola implica não apenas produzir mais alimentos para um país onde milhões ainda passam fome, mas também, e por extensão natural, garantir trabalho para quem está hoje marginalizado. O que é preciso é que o discurso de apoio se converta em realidade. Com uma política voltada para a agricultura, o Brasil estará no caminho para sair desta interminável crise.





