Editorial - FHC no Nordeste
Editorial
FHC no Nordeste
Pessoas comuns dividem a vida em compartimentos mais ou menos estanques: trabalham em determinados horários, passeiam, fazem compras em outros, vão a festas ou a outras diversões, vivem. Já um político não tem esta divisão. Ele está permanentemente em campanha, tenha ou não um mandato, esteja ou não concorrendo a algum cargo, perto ou longe das eleições. Faz parte da vida pública, do próprio esquema político-representativo. Até por isto, inclusive, o político está sempre atento, não pode falar aleatoriamente, tem de estar constantemente preocupado com tudo o que faça.
Se esta realidade já era inquestionável no passado, tornou-se ainda mais clara na atualidade, sob a égide da reeleição dos chefes de Executivo. De fato, antes que fosse permitido a presidente, governadores e prefeitos que postulassem novo mandato em seguida ao que exerciam, tais políticos viviam situação curiosa, quando no exercício dos respectivos cargos: podiam ter até candidatos à própria sucessão, mas como eram inelegíveis tinham mais facilidade no trânsito político. Uma vez eleitos, já eram considerados mais ou menos fora do baralho para o pleito seguinte. A reeleição mudou tudo. Hoje, o político eleito presidente, governador ou prefeito é, automaticamente, candidato à reeleição. Assim ocorre, aliás, nos Estados Unidos: no dia em que assume a presidência pela primeira vez, o chefe do Executivo já está em campanha pela reeleição.
Naturalmente, esta situação cria uma série de problemas para o próprio político, para seus adversários e, naturalmente, para a Justiça Eleitoral, que deve estar sempre atenta em relação, principalmente, ao uso da máquina administrativa em benefício de tal ou qual postulante. De fato, a situação nova criada pela aprovação da emenda da reeleição obrigou a mudanças até no capítulo das incompatibilidades, produzindo situação que reclama o uso de dose maior de bom senso por parte da Justiça e critério muito honesto em relação ao titular do Executivo que postula novo mandato.
A verdade é que não há mal em si na campanha eleitoral. Ela faz parte do jogo da chamada vida pública, que é exatamente isto: pública. O presidente da República não precisa ir a região tão terrivelmente abalada quanto o Nordeste para estar em campanha. Em qualquer parte, aqui ou no exterior, em visita oficial à Espanha ou participando do velório de um político e amigo, ele está em evidência, seus gestos, reações e pronunciamentos são vistos, ouvidos e acompanhados pelo povo (formado, em boa parcela, pelos eleitores). As ações que determina podem ajudar a melhorar sua performance como candidato ou prejudicá-la. E neste quadro, o que mais preocupa não é o fato de se poder afirmar com segurança que o homem público está em campanha, mas a aparente vontade de iludir os outros, negando o que está fazendo.
O melhor de um chefe de Executivo que pode se candidatar à própria sucessão, aliás, não é o fato de estar em campanha 24 horas por dia, mas sim de não precisar prometer, como os outros postulantes, já que tem condições de fazer alguma coisa de imediato. Esta é a grande vantagem que o político que disputa a reeleição tem e que, pelo menos nesta visita ao Nordeste, o presidente Fernando Henrique Cardoso não usou, lamentavelmente. Pois o que ele podia (e devia) ter feito era levar mais que promessas aos nordestinos, na visita oficial e desligada, como disse, da campanha. Como chefe do Executivo, poderia ter providenciado atendimento mais rápido aos flagelados, o que não ocorreu. E com isto, sem dúvida, perdeu boa oportunidade de trabalho e alguns pontos na campanha.





