Quando a oposição critica o Governo por má aplicação dos recursos orçamentários, está no seu papel. O mesmo se pode afirmar em relação à imprensa, que, exercendo uma função isenta e não político-partidária, tem também o direito e o dever de estar atenta e apontar falhas, abusos e, principalmente, aplicação inadequada das verbas. O presidente da República, obviamente, também tem o mesmo direito e dever, mas não deixa de ser curioso que o chefe do Governo venha a público fazer críticas severas à má aplicação dos recursos destinados à Saúde, como ocorreu sexta-feira última. Com muito mais motivos do que antes, espera-se agora que o presidente, do alto do seu posto, corrija os desvios que estão acontecendo.
A crítica foi feita em resposta a denúncias de desvio dos recursos captados pela CPMF - originalmente destinadas à Saúde - para outros setores. O presidente foi taxativo ao afirmar que os meios postos à disposição da Saúde são mais que suficientes, assinalando que as falhas decorrem de má aplicação dos recursos e da excessiva burocracia, erros que são continuamente apontados pela oposição. Nada é perfeito nesta vida nem nos governos, mas se o chefe do Executivo tem conhecimento de falhas, seu papel não é o de denunciá-las em público, mas de tomar as providências para corrigi-las e, depois, informar a nação a respeito.
Não há dúvida de que o presidente tem razão na sua crítica. Não só na área da Saúde, mas em muitos outros setores da atividade pública brasileira, há aplicação indevida, desvios, falhas gritantes, burocracia excessiva. Relatório do Banco Mundial sobre os gastos sociais no País chega praticamente à mesma conclusão quando assinala que ‘‘o Brasil gasta quantias relativamente altas com programas sociais, sem contudo conseguir melhorar seus indicadores nessa área’’. O documento ressalta que aqui ainda morrem mais crianças do que em países com renda per capita inferior, sinal de que há mesmo falhas na aplicação dos recursos.
Um país que exibe uma miséria imensa como o Brasil, apesar de sua economia estar entre as 12 mais fortes do mundo, precisa imperativamente usar melhor os recursos que se destinam à área social - Saúde, Educação e outros -, o que é plenamente possível desde que haja comando coerente e uma vontade concreta.
A Saúde constitui, sem dúvida, um desafio que o Governo precisa resolver a fim de garantir à população carente o mínimo para sua sobrevivência. E se o chefe do Governo percebe falhas ali, o que tem de fazer é agir diretamente, inclusive chamando às falas o ministro da Pasta.
Perdemos muito tempo - dezenas de anos, certamente - culpando as estruturas, a burocracia, os vícios do setor público, pela maioria das nossas mazelas. Não se pode mais repetir o argumento. E não se pode, também, concordar com os artifícios dos economistas oficiais para retirar verbas da Saúde, aproveitando que os recursos da CPMF estão mais gordos do que calculavam. Se há aplicação indevida, e truques também, é caso de ação direta, objetiva e concreta do Governo e de seu chefe maior, que não é porta-voz da Oposição.

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