Editorial - Fatos novos na sucessão
Logo após a Guerra do Golfo, o então presidente norte-americano George Bush atingiu impressionantes índices de aceitação e popularidade junto ao povo, dando-se à época como absolutamente certa sua reeleição no pleito que seria realizado pouco mais de um ano depois. Quando chegou a hora das urnas, o que se viu foi uma coisa bem diferente: Bill Clinton, um político sem muita projeção até então, derrotou o presidente que parecia imbatível. Em relação às eleições, nos Estados Unidos como no Brasil ou em qualquer país democrático, a única coisa que se pode dizer, com certeza, é que quase nunca é possível antecipar o que as urnas vão dizer. Pesquisas ajudam, projeções também, mas não poucas vezes o eleitor vai contra aquilo que se tem como certo algum tempo antes do pleito.
O caso brasileiro, faltando praticamente um ano para as primeiras eleições em que os chefes de Executivo vão poder concorrer a um segundo mandato, mostra um quadro quase similar ao norte-americano da época Bush. Hoje, segundo as pesquisas, as projeções e tudo o mais que se analise, o presidente Fernando Henrique Cardoso parece em situação muito firme para o desafio de 1998. Na verdade, há alguns dias, a maioria dos analistas considerava que só um desastre econômico de enorme profundidade tiraria a reeleição de FHC. Um acidente que, ademais, ninguém quer porque implica em complicar uma situação que a quase totalidade da população aprecia e que espera ver permanente. Isto significava que até mesmo os adversários eventuais do presidente não poderiam desejar reversão que derrubasse, por exemplo, a atual estabilidade.
Entretanto, e precisamente quando faltam poucos dias para terminar o prazo para filiações partidárias com vistas ao pleito do próximo ano, fatos novos - e de peso - ameaçam conturbar o horizonte até agora tranquilo do presidente. Os anúncios da filiação partidária do ex-presidente Itamar Franco, no PMDB, e do ex-ministro da Fazenda, Ciro Gomes, no PPS, trazem novos elementos para a equação sucessória, ainda mais porque um como outro surgem, naturalmente, como candidatos à presidência. E os dois, principalmente o ex-presidente, podendo usar o mesmo argumento para a campanha eleitoral: o sucesso do plano de estabilização.
Se é fato que o presidente Fernando Henrique Cardoso é o mentor do Plano Real, também é indiscutível que tudo foi feito no Governo Itamar Franco. E o ex-presidente tem uma vantagem, não desprezível para uma boa campanha eleitoral: ele não sofreu o desgaste que, naturalmente, decorre de todo um período de governo. É o caso de FHC: por ser o presidente, está na mira dos adversários, sejam eles da oposição tradicional ou os antigos companheiros, que entre tantos argumentos poderão até anunciar desvios de rota do plano original. O presidente, disputando a reeleição, tem vantagens por estar no cargo, mas também sofre por ser a grande vidraça, exatamente pelo fato de ser o chefe do Governo.
Esta divisão pode beneficiar a oposição efetiva, aquela da chamada esquerda, que sempre se colocou em posição crítica diante do governo. De fato, Itamar Franco, Ciro Gomes (ainda que em menor escala, pelo menos na ótica atual) e Fernando Henrique Cardoso correm na mesma faixa. O que significa que podem dividir votos. Uma candidatura de oposição plena - quase com certeza, outra vez, Luiz Inácio Lula da Silva - poderá se beneficiar se conseguir unir sua faixa contra a divisão na área dos pais do real. Tudo isto indicando que, de repente, a vitória certa pode ficar duvidosa.





