A saída do ministro das Comunicações e do presidente do BNDES do governo, como consequência do já chamado escândalo dos grampos telefônicos, lembra um pouco a antiga fábula de La Fontaine relativa ao lobo e o cordeiro. O cordeiro argumentou de modo fantástico, lógico, defendeu brilhantemente suas teses ante um lobo famélico. Mas o lobo acabou devorando o cordeiro, porque isto faz parte de sua natureza. Quando o escândalo eclodiu, o ministro Mendonça de Barros se dispôs a ir ao Senado para prestar esclarecimentos. O agora ex-ministro argumentou muito bem, explicou claramente a questão, praticamente comprovou que seus diálogos telefônicos com o presidente do BNDES em nada influenciaram o resultado final da privatização da telefonia. Apesar de tudo, porém, acabou fora do governo, junto com seu parceiro de conversas, levando também o seu irmão - igualmente membro do Executivo - e o vice-presidente do Banco. Alguém tinha de ser sacrificado no altar de uma eventual restauração da credibilidade do governo. E não podia ser, naturalmente, o presidente FHC.
Líderes políticos, reunidos ontem com o presidente, saíram satisfeitos anunciando que o episódio ‘está superado’. Garantiram até que a tramitação do ajuste fiscal vai continuar naturalmente e que tudo permanece como antes, inclusive o apoio que vinham dando ao Executivo. Resta aos que se demitiram o consolo de que em pouco tempo todo o episódio será esquecido - ou substituído por algum novo escândalo -, e a certeza de que encontrarão na iniciativa privada a possibilidade de retomar suas carreiras, sem maiores atropelos. Enfim, um quase final feliz.
O que fica faltando, porém, em toda esta fábula é saber quem é seu autor e, naturalmente, descobrir se haverá alguma punição. Como o presidente Fernando Henrique Cardoso ressaltou no desabafo que fez na curta viagem à Venezuela, todos os fatos decorreram de uma ação ilícita. O ‘grampo telefônico’ que acabou alcançando o ex-ministro e o ex-presidente do BNDES é ilegal. Os dois - e os outros que fizeram uso dos telefones grampeados, o que incluiu até o presidente da República -, trocavam idéias na ilusão de que sua conversa era reservada. Não há dúvida que falaram um bocado de bobagens, mas isto só se soube por causa da ilegalidade do grampo. Aceitar que, no fim, o ato ilegal serviu para desmascarar aquelas autoridades e considerar que por isto a questão se legitima é considerar válida a tese segundo a qual os fins justificam os meios, o que é a base para todos os desmandos cometidos contra os direitos mais simples do ser humano. É o abuso, a ilegalidade, servindo de capa a ações condenáveis.
A demissão dos envolvidos na questão é fato consumado. Foram vítimas de uma nova modalidade de crime, a incontinência verbal, o que talvez possa servir de lição aos homens públicos que, seguramente, vão ter mais cuidado com o que falam, principalmente ao telefone. Resta, porém, precisamente a questão mais séria, a do crime real, a invasão de privacidade configurada pelos grampos telefônicos. A impressão que se tem, inclusive diante da reação dos políticos, é a de que o interesse é o de encerrar o assunto. Todavia, este tipo de atitude representaria o abandono de preceitos legais que configuram garantias inalienáveis a todos os cidadãos, ministros ou não.
Obviamente, pelo menos é o que se espera, a investigação policial vai continuar para que se identifiquem os responsáveis pelo delito básico. Do mesmo modo, é exigível que uma vez identificados, sejam punidos. A tradição de impunidade que macula a democracia não pode ser mantida, sob pena de se ter uma verdadeira subversão de conceitos no final deste lamentável episódio.

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