Editorial

Falta de respeito
Foi o sr. Ronald Reagan, o presidente-artista, quem conseguiu quebrar uma ‘tradição’ americana que durava 120 anos. Desde 1860, quando o sr. Abraham Lincoln foi reeleito presidente, até 1960, com a eleição de John Kennedy, a cada 20 anos um presidente americano morria no exercício do cargo, quatro deles assassinados. O próprio Lincoln e mais três, fora dois que morreram por doença e um que levou um tiro no peito mas não morreu. Este foi Ronald Reagan, eleito em 1980 e que escapou por milagre de uma bala que se alojou a um centímetro de seu coração. Todos os assassinatos e atentados aconteceram dentro dos Estados Unidos.
É natural, e óbvia, a preocupação com a segurança de qualquer chefe de Estado. No Primeiro Mundo, um dos meios mais corriqueiros de entrar para a História é abater a tiro um presidente, um grande líder ou um grande artista, como foram os casos citados e os de Bob Kennedy, Martin Luther King, Sharon Tate, John Lennon e outros. Tudo, aliás, nos Estados Unidos, onde surgem serial killers - variante moderna da forma anterior - como se saíssem de uma linha de montagem. Tanto que, fora dali só é famoso o turco Ali Agca, pelo atentado ao Papa João Paulo II, embora se possa citar outros concorrentes em matéria de exibicionismo, como os anormais da Brigada Rosa italiana, da Eta basca e do Ira irlandês, que conquistaram para sempre um lugar na História.
Mas os Estados Unidos são, sem dúvida, campeões. Por isso, zelar pela segurança de um chefe de Estado americano é algo mais do que uma obrigação. Mas, ao que parece, o Itamaraty brasileiro dispensou o cuidado de informar ao FBI americano que o Brasil não fica nos Estados Unidos. É verdade que lá existe uma pequena cidade com este nome, mas o Brasil da viagem do presidente Bill Clinton é outro. Aqui, por exemplo, só tivemos um presidente morto no cargo porque ele mesmo se matou. Também não temos unabombers e terroristas dinamitando creches, prédios públicos, shopping centers, como em Oklahoma ou Nova York.
Por isso, são risíveis as ‘sugestões’ da segurança de Clinton. Se até o horário de verão brasileiro é um problema, então era melhor não vir agora, em vez de pretender que os relógios voltassem uma hora para trás para que o presidente pudesse descansar um pouco mais! Disparate do mesmo calibre é a ‘idéia’ de suspender o tráfego de trens no Rio de Janeiro, no horário em que Clinton deverá estar num local por onde eles passam. Sem contar que o pretendido uso de bazucas pelos seguranças americanos põe em risco a vida de todos os que estiverem por perto, brasileiros, americanos e curiosos de todas as nacionalidades. Com tal tipo de proteção, não seria impossível o próprio presidente ser atingido pelos seus próprios guardiães!
É oportuno lembrar a nossos visitantes que no Brasil nenhum chefe de Governo foi morto no exercício do cargo. Houve um atentado contra o sr. Getúlio Vargas, durante a ditadura (1930 a 1945), e o próprio sr. Vargas cometeu o suicídio em 1954, quando exercia mandato presidencial democraticamente outorgado pelas urnas. Mas os brasileiros, de modo geral, não matam seus presidentes. E também não temos qualquer tradição de atentar contra visitantes ilustres. O perigo maior, infelizmente, é o que correm os turistas que vão à praia no Rio de Janeiro, devido à violência da marginalidade, que, vale também lembrar, não é privilégio brasileiro. No Central Park de Nova York é igual ou pior.
De toda essa comédia, talvez a única observação correta tenha sido a que foi feita, em documento interno da Embaixada americana, sobre a corrupção no Brasil. No entanto, também isto está longe de ser um privilégio verde-amarelo, se começarmos a lembrar a tradição existente neste particular sob a bandeira da grande nação do Hemisfério Norte. Resta desejar que o presidente americano tenha uma boa estada e acalme seu pessoal para não se machucar.

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