Editorial - Falta de educação
Quando se afirma, com justificada razão, que um dos mais sérios problemas do Brasil é o da educação, há uma falha quase imperceptível na análise do assunto. Normalmente, quem mais cita a questão são os políticos em seus discursos, mas confundem as coisas, considerando que educação é apenas ensinar a ler e escrever. E o que é pior: quem assim pretende apresentar a situação sempre se coloca acima dela. Isto é, os políticos, os governantes, aqueles que mandam entendem que sabem o suficiente e que é necessário ensinar aos outros.
Sem dúvida, há falhas de base tremendas no País, que reclamam mesmo uma política de educação ampla, total, completa. Entretanto, é imperioso perceber que também muitos dos que são colocados pelo povo nos postos de comando igualmente necessitam de mais educação. Naturalmente, há que considerar que em um país de muitos analfabetos e muitos mais semi-alfabetizados, a representação política não pode ser muito diferente. O Governo, de certo modo, é reflexo do povo que o escolheu. Se é certo que o povo na maioria reconhece suas falhas, os políticos - o que é lamentável -, não têm este tipo de autoconhecimento. Pensam que sabem. E com isto não apenas cometem enormes equívocos, como também criam problemas sérios para o próprio povo a quem devem governar.
O presidente Fernando Henrique Cardoso, com uma vasta bagagem cultural inegável, acaba de deixar evidente, em discurso feito no Chile, uma falha estrutural em sua educação política. Ao enfatizar que um dos mais graves problemas do Governo é o do equilíbrio das finanças públicas, o presidente salientou que tem controle direto apenas sobre as finanças do governo federal, mas não controla diretamente nem as dos 27 Estados e nem as dos mais de cinco mil municípios existentes no País. Ora, quando diz isto o chefe da Nação mostra ou ignorância sobre a própria estrutura do Estado federativo ou uma mal disfarçada intenção de reclamar mais poder para controlar as finanças públicas. Em qualquer caso, cria situação constrangedora para governadores e prefeitos e, indiretamente, para a população que os elegeu.
Faltou, no caso, educação para o presidente perceber o absurdo de sua colocação. Assim também é possível perceber que falta a muitos governadores e prefeitos o conhecimento mínimo de suas responsabilidades diante do povo e do País como um todo.
Os políticos brasileiros, de modo geral, não estão se mostrando apenas mal preparados para os cargos que exercem. O pior é o desconhecimento da própria ignorância e a confusão que provocam quando reclamam da falta de poderes ou quando agem inadequadamente no exercício de suas funções. O presidente não controla - e nem pode - as finanças dos Estados e dos municípios. E nem foi para isto que o povo o elegeu. Se governadores e prefeitos falham, isto também decorre da falta de maior preparo, unida a uma deficiente visão da realidade, provocada por toda uma estrutura, que considera ser possível um cargo público suprir as deficiências de educação. O diploma que os eleitos recebem, infelizmente, não confere grau ou cultura.
O que prefeitos, governadores, o próprio presidente e também deputados, senadores, vereadores, enfim todos quantos estão em cargos públicos precisam é perceber que a questão da falta de educação no País não envolve só o povo analfabeto. É também um triste apanágio de políticos, que não entendem seu grande papel e sua enorme responsabilidade junto ao povo e ao País. Eventualmente, um aprofundamento cultural sobre o papel dos políticos fosse útil até para melhorar sua atuação na vida brasileira.





