Editorial - Falta de competência
Falta de competência
Embora com atraso, o bom senso prevaleceu e o senhor João Batista Campelo pediu demissão do cargo de diretor-geral da Polícia Federal, três dias depois de ter tomado posse. É lamentável a situação que, na realidade, sequer deveria ter ocorrido. Logo depois que se anunciou que o presidente Fernando Henrique Cardoso havia escolhido o senhor Campelo para o cargo, produziu-se uma reação muito forte, com a divulgação de denúncias contra ele. O ex-padre José Magalhães Monteiro revelou ter sido vítima de sessões de tortura, no tempo da ditadura, comandadas pelo então nomeado diretor-geral da Polícia Federal. Antes mesmo da denúncia havia um clima tenso por causa das circunstâncias que envolveram a escolha do novo titular da PF. A definição do nome ocorreu em meio aos célebres problemas que o governo vem enfrentando na costura de apoios junto aos partidos políticos que o apóiam e que se mostra cada vez mais esgarçada. O presidente, ao escolher pessoalmente Campelo, pretendia certamente mostrar sua força diante da pressão e dos interesses que tentavam influenciá-lo. O problema, porém, foi que alguém da assessoria presidencial falhou (fala-se em erro de informação da Casa Militar) e a escolha de FHC acabou recaindo sobre uma pessoa cujo passado tornou insustentável sua permanência no cargo.
Esta questão de acusações contra personalidades públicas tem sido muito discutida. Em princípio, como já se comentou, parece absurda a idéia de que alguém pode ser destituído (ou ter a nomeação questionada) por uma denúncia. Todavia, diante da própria essência do exercício do poder, que exige de seus membros uma postura acima de qualquer suspeita, é certo que uma simples acusação é perniciosa. O mínimo que pode acontecer quando isto acontece é que o denunciado seja afastado do cargo, mesmo que provisoriamente, até que se investiguem as denúncias. Não é difícil entender isto: como pode um deputado, acusado de corrupção votar em plenário sobre sua própria cassação? Embora a investigação em torno do caso do senhor Campelo não devesse ocorrer na Polícia Federal, é certo que sua continuidade no cargo enquanto ocorrem investigações a respeito de sua conduta dificulta até o pleno exercício das atribuições que lhe competem.
A falha na nomeação foi agravada pela teimosia na manutenção da escolha, culminando tudo numa posse vexatória e terminando, agora, com o pedido de demissão do senhor Campelo, que apenas antecipou o que era tido como certo. Resta que este lamentável episódio deixe algumas lições ao presidente, a todos os seus assessores e também aos partidos políticos que parecem mais empenhados no jogo do poder do que na verdadeira tarefa que incumbe a eles, a de contribuir, cada um em seu cargo, para a boa governabilidade do País.
A administração Fernando Henrique Cardoso não completou ainda seis meses neste novo mandato e tem se mostrado, para preocupação geral, tíbia diante das dificuldades, assolada também por uma tempestade de interesses que fazem tremer até as estruturas da democracia. As CPIs que investigam bancos e o Judiciário, as denúncias sobre corrupção em vários níveis, a briga por cargos entre os partidos que apóiam o governo, a cisão entre líderes do Congresso e entre os presidentes do Senado e do STF, tudo indica insegurança.
O governo como um todo (incluindo os três Poderes) precisa adotar rapidamente uma postura diferente, conforme até o que estabelece a Constituição. Os três Poderes, que devem ser independentes e harmônicos, estão em choque. O País precisa de menos vaidades e mais competência para superar corretamente dificuldades que entravam o processo e a vida do cidadão.





