Editorial - Falhas na educação
O Brasil investe mais recursos em educação (proporcionalmente ao seu PIB) do que muitos outros países. Todavia, conforme relatório divulgado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, o país oferece condições piores de ensino para a população carente do que algumas das nações mais pobres da África e também da América Latina. A explicação para esta situação é simples: embora invista mais em educação, o Brasil distribui mal estas aplicações. As camadas mais privilegiadas (quer dizer, os mais ricos) são melhor aquinhoadas, ficando para os pobres uma situação de quase abandono. Ademais, ainda segundo o que revela o BID, o Brasil investe muito no chamado ensino de terceiro grau (superior), bem menos no ensino médio e quase nada no básico. E com isto compromete muito o próprio desenvolvimento, ajudando a ampliar o fosso que existe entre as camadas pobres e as ricas.
Educação é o tema-chave até da celebração dos 500 anos de existência legal do Brasil, que serão comemorados em abril de 2000. Este é o discurso. Esta é também a coisa certa a fazer. Os investimentos em educação constituem a base real para o crescimento e o desenvolvimento de qualquer país. É oportuno, a propósito, observar o resultado de uma pesquisa feita recentemente, nos Estados Unidos, sobre as preocupações dos eleitores norte-americanos às vésperas de novo pleito legislativo, em novembro. Segundo o levantamento, a educação constitui a maior preocupação dos eleitores, acima da proteção do sistema federal de aposentadoria e da luta contra o crime. A melhoria do sistema de educação continua sendo a principal prioridade para 77% dos eleitores ouvidos. Diante disto, nem seria preciso procurar outros motivos pelos quais os Estados Unidos são a principal potência do mundo.
Quanto ao Brasil, persiste a grande e tremenda falha do direcionamento errado nesta aplicação, apesar da expressiva mudança que se deve destacar e que se percebe pelo fato de estar, atualmente, investindo bem mais em educação do que no passado. Uma falha dupla: maior apoio às camadas mais privilegiadas, que poderiam até prescindir da ajuda oficial, e a falta de uma política real voltada ao ensino básico. Nem seria preciso consultar as conclusões do BID sobre o resultado disto que está bem presente na vida nacional, com os pobres praticamente condenados a uma situação sem esperança, enquanto os ricos garantem seus privilégios e reforçam suas posições.
Ocorre que a continuação de uma política sob este direcionamento antecipa problemas muito sérios. O Brasil, como ponderável parte dos países não desenvolvidos, tem uma parcela imensa de sua população vivendo em condições de miséria. Nos últimos anos, graças aos efeitos positivos do plano de estabilização, uma parte dos que se encontravam na mais absoluta pobreza conseguiu melhorar sua situação. Mas o quadro ainda é muito sério. E não há dúvidas em relação ao fato de que o resgate desta dívida social que o Brasil tem para com milhões de brasileiros em situação de miserabilidade passa por uma profunda mudança em muitas atitudes.
O efeito positivo que poderia ter resultado da estabilidade está praticamente esgotado. Agora, é preciso dar àquela população o acesso à educação para ter condições de participar de seu próprio resgate. Este, ademais, o caminho efetivo de se realizar uma política social concreta: não dar esmolas a quem precisa, mas propiciar condições para que resolvam seus problemas, o que começa, sem dúvida, com um esforço pleno no campo da educação de base.





