Um terço da raça humana passa fome. Esta informação tem sido repetida por décadas, enfocando um problema real e angustiante e deixando no ar também uma indagação maior: por que é que o ser humano, com toda sua capacidade, protagonista de feitos considerados inacreditáveis (como alcançar a Lua, realizar missões a Marte, fotografar galáxias distantes, entre outros), não consegue o mais simples: alimentar a população do mundo? Ponderar que hoje há mais gente do que jamais houve no planeta é observar o problema pelo ângulo equivocado. Mesmo quando a população era menor, a relação da fome era a mesma. Tudo evoluiu, mas não se percebem soluções para este aparentemente simples problema, o de alimentar todos quantos ocupam esta Terra.
A organização não-governamental Ação Contra a Fome (ACF), em relatório publicado no último dia 6, em Paris, traz um novo enfoque a respeito, uma verdadeira e terrível denúncia: ‘‘A fome virou uma arma política. Em quase todos os conflitos do globo, ela é criada artificialmente’’, revela o documento. O trabalho, com o título ‘Geopolítica da Fome’, publicado para marcar o Dia Mundial da Alimentação, que transcorre no dia 16, insiste no fato de que ‘‘há muito poucos exemplos de fome atualmente que não sejam ligados a um conflito’’. E vai além: ‘‘Se hoje ainda pessoas morrem maciçamente, é porque a fome permite suscitar a ajuda internacional ou beneficiar um reconhecimento político’’.
A associação analisa especialmente o caso do Sudão, onde a maioria da população não tem mais recursos para comprar o sorgo colhido pelos agricultores nacionais. ‘‘O poder de Cartum (capital do Sudão) não hesita em utilizar a arma da fome para favorecer a islamização’’, escreve Sylvie Brunel, a pesquisadora que coordenou o relatório, enquanto ‘‘os movimentos armados do Sudão sabem muito bem orquestrar as penúrias’’ para provocar a ajuda. Como os campos de desabrigados se situam sempre nos arredores do front armado, isso permite aos soldados ‘‘se beneficiar de depósito de comida, de medicamentos e de recursos potenciais, conservados pelos bons cuidados dos samaritanos humanitários’’, prossegue. A ACF testemunha estas manipulações há 20 anos e acabou fazendo sua própria tipologia das fomes. As mais ‘clássicas’ não desapareceram: são criadas para eliminar populações ‘incômodas’. Outras, estratégias, são ‘mais novas’ e ‘mais perversas’: ‘‘expor o espetáculo terrível de um povo em vias de morrer de fome (...) para obter ganhos’’.
O Brasil não escapa à denúncia da entidade. ‘‘Tanto no Nordeste quanto na Amazônia, a seca é uma bênção para os poderes locais’’, denuncia o informe da ACF. ‘‘O ano de 1998 foi marcado por dificuldades nutricionais importantes’’ naquelas duas regiões, acrescenta o documento, que vai além: ‘‘Cada (seca) reforça o poder dos já poderosos latifundiários’’. Citando o presidente Fernando Henrique Cardoso, que em sua campanha eleitoral de 1995 disse que o Brasil não é um país pobre, mas sim injusto, a ACF interrogou-se por que o presidente, uma vez no poder, aplicou a mesma política adotada por seus antecessores. O relatório, porém, não é pessimista. E assinala no final que ‘‘erradicar a fome não depende de milagre’’. É até mesmo um ato fácil, ‘‘a partir do momento em que se queira agir’’. Infelizmente as três condições indispensáveis são raramente reunidas: ‘‘agir em tempo, chegar às vítimas da fome e poder trabalhar com toda liberdade assegurando-se de que a comida chega àqueles que precisam dela’’. No caso brasileiro, o combate à fome envolve inúmeras outras situações, incluindo a histórica questão agrária, o desenvolvimento agrícola, a melhor distribuição de renda e, acima de tudo, um governo capaz de priorizar as políticas necessárias, nestes e em outros setores, capazes de livrar faixas mais necessitadas da população desta luta básica, angustiante e cotidiana, a luta por comida.

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