Editorial
Exploração condenável
Se é compreensível que o ser humano, premido pela fome, açoitado pela miséria e pela dor de seus filhos, chegue a agir de modo brutal, furtando, roubando ou até saqueando um estabelecimento para obter comida, é absolutamente inaceitável a postura dos que estimulam este tipo de ação ou dos que tentam explorar situações dramáticas em benefício próprio. E é o que, infelizmente, se está observando nestes dramáticos dias que o Nordeste vive, em função dos efeitos da seca que leva a fome a 10 milhões de brasileiros.
Não é esta a primeira vez que o Brasil vive situação assim. O Nordeste tem uma História lamentável de sofrimento, decorrente da seca que torna a vida, em muitas ocasiões, impossível. Mas não foi apenas ali que se observou este tipo de situação. Numa das épocas mais críticas durante o recente período ditatorial, ocorreram saques inclusive em metrópoles desenvolvidas como São Paulo, num contexto ainda mais complicado. Era um tempo de repressão tão violenta que só mesmo uma situação de desespero poderia levar um grupo de pessoas a adotar este tipo de comportamento. O fato positivo decorrente daquela situação foi uma reação inesperadamente inteligente da autoridade, que não usou da violência para sufocar a mobilização espontânea. Com habilidade, foi possível superar a crise e evitar desdobramentos mais sérios.
Hoje, embora o drama dos nordestinos seja efetivamente imenso, também é plenamente possível dar solução a ele, nos dois aspectos mais importantes: o imediato, que consiste em levar alimento aos famintos, e o de mais longo prazo, no sentido de produzir condições capazes de reverter a situação, garantindo ao Nordeste possibilidades de enfrentar o cíclico drama da seca, como tantas vezes foi prometido. Todavia, para que de fato possam ser produzidas soluções, notadamente as de emergência, é vital que os aproveitadores que começaram a agir ali, tentando criar situação de anarquia, também se contenham (ou sejam contidos). Até porque, o que se viu estes dias não foi a palavra de entidades - inclusive a Igreja - justificando os saques, mas o estímulo direto a tal ação, com a presença de agitadores que seguramente têm objetivos menos elevados e visam tirar proveito de uma tragédia, verdadeiros abutres a buscar vantagens do drama de milhões de pessoas.
A reação de muitos brasileiros, gente simples que também passa por dificuldades, foi verdadeiramente emocionante. Pessoas que resolveram lançar suas próprias campanhas, arrecadando o possível, para enviar ou até levar pessoalmente socorro aos desamparados do Nordeste, dão uma lição que precisa ser rapidamente assimilada pelos governantes. Neste momento, não há outro modo de agir diante deste desafio que não este adotado por pessoas que se sentiram pessoalmente sensibilizadas frente à fome que atinge nossos compatriotas. É preciso agir, levar alimentos, roupas, assistência de toda ordem, até porque junto com a fome e as precárias condições locais vêm as doenças e as epidemias, que já começam a ser registradas. Não há como tergiversar diante da crise. Todavia, é imperioso que a ação seja correta e não abusiva, que se levem recursos e não estímulos a um tumulto tão orquestrado que, em alguns casos, tem a providencial cobertura ao vivo de emissoras de TV.
O Brasil digno e humano, que se condoe da situação dos flagelados, faz a sua parte e exige atitudes concretas e objetivas do governo para atendimento aos famintos. Mas, assim como não aceita exploração demagógica desta tragédia, também não pode concordar com os que estão tentando usar a situação para seus próprios e inconfessáveis interesses.

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