EDITORIAL - Expectativa de vida saudável
Ante o relatório sobre a expectativa de vida saudável, no mundo, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) acaba de divulgar, o Brasil rapidamente preocupou-se não em absorver o fato e avaliá-lo, mas em contestar o índice atribuído ao nosso país - de 57,1 anos - como se a contestação pura e simples mudasse a realidade. Não será necessário esse relatório para se saber que o nível de saúde do brasileiro não é satisfatório e que, quando ele alcança aquela idade, sua vida já começa a ficar problemática, sobretudo nas regiões pobres do País e nos bolsões miseráveis das cidades.
O próprio IBGE publicou recentemente que 50 milhões de patrícios vivem em situação de miserabilidade. As autoridades brasileiras, porém, atêm-se ao aspecto plástico do problema, ou seja, negar números, ademais quando divulgados pela OMS, porque têm repercussão mundial. O chefe da assessoria do Ministério da Saúde diz que a metodologia usada para os cálculos é falha, e o ministro José Serra pleiteia há bastante tempo que aquela Organização deixe de fazer essa classificação entre os países. Que assim - só faltou dizer - a imagem externa do Brasil se livra, embora o problema persista.
Naturalmente, o baixo índice de expectativa de vida saudável não é um problema apenas deste governo - e também não o é somente dos governos, pois tem a ver também com questões diversas de ordem cultural, nas diferentes regiões e grupos étnicos - mas o regime de desatenção à vida dos cidadãos não se alterou nestes sete anos da atual administração pública federal.
Há nações que discordam dos sistemas da OMS de fazer esses levantamentos, mas, no caso do Brasil, bastará observar os nossos idosos da faixa pobre - que constituem a maioria da população - para saber que não se trata de pessoas saudáveis; basta deter-se numa fila do INSS, e mais não será preciso dizer. Então, se a OMS eventualmente erra no varejo, em alguns percentuais, acerta no atacado.
Mas, no que respeita aos idosos, há outro problema igualmente desumano, no Brasil, que é o alijamento das pessoas, do mercado de trabalho, quando elas atingem idade mais avançada. São consideradas incapazes, e a velhice como um estorvo. Se as políticas públicas levam a nação ao atraso e já não permitem a geração de empregos, é certo que se criou a mentalidade, entre nós, de que os ''velhos'' têm que ser substituídos pelos jovens - e estes, naturalmente, também necessitados de ocupação remunerada e, a cada dia, mais e mais deles chegando à idade do trabalho, num país de predominância populacional jovem.
Enquanto em países desenvolvidos a experiência dos idosos é valorizada e aproveitada, criou-se no Brasil o conceito da superestima à energia dos jovens, o que não é um mal, desde que isso não ocorra em desprezo dos mais velhos - que, mesmo com expectativa baixa de vida saudável, têm a virtude do conhecimento e da prudência, atributos que devem se somar ao ímpeto dos jovens e não serem excluídos.
Batalhar pela conquista de maior longevidade de vida com saúde, e garantir empregos para os mais idosos, é um dever do Estado e da sociedade, não só por questão humanitária mas também estratégica. Porque uma nação não pode desprezar a grande riqueza humana representada pelo acúmulo de informações e conhecimento dos mais velhos, para que isto se junte ao vigor e à ousadia dos jovens.





