Editorial - Evolução do eleitor
Com o foco praticamente todo centrado no pleito presidencial, ficando as pugnas estaduais em segundo plano, as eleições legislativas foram algo descuradas. Entretanto, a composição final que emerge da nova Câmara Federal deixa evidente um fato da mais alta relevância: o PSDB, partido do presidente Fernando Henrique Cardoso, teve um crescimento de 57% na composição do Congresso. Terá na próxima Câmara Federal uma centena de cadeiras e mais 6 senadores. Paralelamente, os outros partidos que apóiam o governo em nível federal também conseguiram bom desempenho.
A primeira reação é a de se considerar que o Executivo federal terá melhores condições para o exercício de suas atividades, com uma bancada maior. Mas isto é uma situação a ser analisada depois, até porque o próprio presidente terá que reformular suas alianças e reestruturar o apoio junto ao Congresso. No momento, o mais importante a destacar é a percepção do que este resultado indica a respeito do eleitor brasileiro.
Geralmente, o comentário é o de que os eleitores não sabem votar, uma crítica errônea e que, no fim, representaria o reconhecimento de que os eleitos não são os melhores. Na verdade, o povo brasileiro está evoluindo, o senso da cidadania vem ganhando terreno, atualmente o cidadão não só tem conhecimento maior de seus direitos, mas luta por eles. Esta evolução teria de ser percebida também no exercício do voto e é marcante no aspecto relativo à escolha de candidatos ao Legislativo sintonizados com os eleitos ao Executivo. Fernando Henrique Cardoso teve maioria absoluta no primeiro turno. Como, porém, o voto não é vinculado, o eleitor poderia ter escolhido FHC para presidente e parlamentares da oposição para a Câmara e o Senado. O crescimento do PSDB e o bom desempenho de outros partidos que integram o bloco governista indicam que o eleitor vai percebendo a importância do posicionamento político dos candidatos.
Na medida em que se constata com clareza esta evolução do eleitor é possível considerar que está na hora de haver também uma mudança positiva em relação aos políticos. Pois vale pouco o eleitor escolher hoje o candidato de um partido, garantir sua vitória, se em alguns meses o eleito resolve trocar de legenda. Isto vem acontecendo sempre, modificando tremendamente o próprio quadro da representação no Congresso. A formação do novo Congresso, eleito no último dia 4, dificilmente será a mesma dentro de quatro anos. É o que se viu nesta última legislatura. Dezenas de deputados deixaram os partidos pelos quais foram eleitos, mudando a estrutura política, sem o aval do eleitor.
Para tentar evitar esta distorção, o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, anunciou que o Congresso vai apressar a tramitação da reforma política e tentará votar até o fim deste ano o item que institui a fidelidade partidária. Segundo ele, a medida entraria em vigor seis meses após a aprovação para os que estão em trânsito se acomodarem. A idéia é antiga e, ao contrário do que possa parecer, não é totalitária, embora tenha sido o regime ditatorial que a tenha usado durante bom tempo. A exigência da fidelidade partidária está ligada intrinsicamente à idéia da representação política autêntica. O candidato eleito por uma legenda tem um compromisso com ela, não podendo trocá-la como se fosse uma roupa velha ou inadequada. Naturalmente, o político pode mudar de partido por uma série de razões. É livre para isto. O que se discute é o fato de levar para outra legenda os votos que recebeu, distorcendo a representação e até a vontade do eleitor.





