Editorial - Evolução da Humanidade
A explosão de violência no Paraguai, começando com o assassinato do vice-presidente Luis Maria Arga¤a, na terça-feira, acompanhada no dia seguinte do início dos bombardeios da Otan contra a Iugoslávia, acabaram deixando em plano quase secundário a decisão da Câmara dos Lordes britânica que, outra vez, rejeitou a imunidade do ex-ditador chileno Augusto Pinochet, permitindo a sequência do processo de extradição para que ele venha a ser julgado na Espanha por seus crimes. Entretanto, é fora de dúvida que esta deliberação britânica representa, como bem ressaltou a imprensa espanhola, a abertura das portas para a justiça universal e constitui um aviso para os genocidas de todo o mundo. Pinochet julgado e sentenciado será um ato equitativo de reparação para as vítimas e seus familiares. Mas é muito mais importante que qualquer tirano ou genocida possa ser sentado no banco dos réus a partir de agora, assinala o jornal El Mundo, de centro-direita, em editorial. Em Londres, se abriu a porta para uma justiça universal que deverá culminar em um Tribunal Penal Internacional, afirma por seu turno o jornal El País, de centro-esquerda.
Os jornais espanhóis minimizaram a limitação estabelecida pelos lordes, que assinalaram que Pinochet só pode ser julgado por delitos cometidos depois de setembro de 1988. Apesar da redução de acusações, o veredito é claro: a imunidade como chefe de Estado não garante a liberdade para cometer crimes contra a humanidade, assinala La Vanguardia (centro-direita). Além disso, a decisão dos lordes não enfraquece em absoluto o processo de extradição, pois basta um único delito para entregar Pinochet à justiça espanhola, coincidem em assinalar os jornais de Madri e Barcelona.
O destino do ex-ditador chileno, vivendo há quase meio ano uma situação que é absolutamente inesperada, pode vir a se tornar, mesmo que sem nenhuma vontade, um marco na História da Humanidade. Os ditadores têm feito, de certo modo, a História do mundo, ao longo dos tempos. E além de sua violência e mais pleno desrespeito pela vida humana, mostram um traço em comum: a total impunidade. Violentam os povos que lhes caem nas garras, estabelecem o terror enquanto dominam, assaltam o erário e quando se afastam (ou são postos fora) vivem uma doce e impune aposentadoria, jamais acreditando em qualquer tipo de punição. O pior que pode lhes acontecer é um atentado, como o que vitimou Anastázio Somoza, no Paraguai, depois de haver saqueado e violentado a Nicarágua por décadas. Mas enfrentar a prisão, um julgamento, uma punição, isto parecia inconcebível até agora.
Augusto Pinochet pode ser a primeira vítima de uma nova era em um mundo que se transforma e em que o cidadão começa a fazer valer seu direito à dignidade ante a violência dos tiranos. Responsável por milhares de crimes, por ação ou omissão, ele conseguiu - como os ditadores do Brasil, no último período totalitário -, fazer uma transição e escapar aparentemente impune, gozando seus últimos anos sem problemas de consciência ou temor de punição. Foi atropelado por novos fatos e pode agora ser levado a um banco de réus, respondendo pelo menos por alguns dos crimes que cometeu ou permitiu. Talvez até escape, escudado em razões humanitárias, as mesmas que não respeitou. Mas o que importa é que toda esta situação que o ex-tirano vive marca uma profunda transformação nas relações humanas. Pinochet, há alguns anos, como Slobodan Milosevic (o homem que determina a violência contra os habitantes de Kosovo) são seres fora do tempo e que não podem mais ser tolerados pela consciência humana. A punição deles é um sinal de que, neste fim de século, a Humanidade parece estar começando a evoluir.





