Editorial - Ética na política
Ao garantir aos democratas uma votação até inesperada, no pleito da terça-feira, os eleitores norte-americanos deram um recado que chega a ser preocupante por revelar quase que uma amoralidade cínica. De fato, o resultado, que serviu como absolvição moral do presidente Clinton, ameaçado de impeachment pela maioria republicana do Congresso, indica que ao eleitor interessam pouco as aventuras sexuais do presidente ou até mesmo se ele mentiu sob juramento sobre isto. Se o país vai bem, a economia está firme, existem empregos, pouco importa se o presidente é adúltero, se persegue estagiárias ou auxiliares, se bate na mulher ou até mesmo se é um perjuro. Este último tópico, aliás, mostra uma transformação: se havia coisa que os norte-americanos levavam a sério era a questão de mentir sob juramento! De repente, para os que votaram na terça-feira, isto pareceu não ser tão relevante.
Numa época em que, especialmente entre nós, se fala tanto em ética na política, o veredito das urnas norte-americanas é algo chocante e, em certo sentido, coloca sob nova ótica toda a questão relativa à atividade pública. Inegavelmente, o que aconteceu nos Estados Unidos foi ampliado demais, houve sem dúvida um esforço deliberado (e, pode-se dizer, demagógico) no sentido de tirar proveito eleitoral de uma questão que, no fim, é mais pessoal. A impressão é a de que, à falta de argumentos políticos ou até de propostas concretas, diante mesmo da própria situação de euforia que os Estados Unidos vivem, sob a administração Clinton, os republicanos tentaram derrubá-lo pela via da execração moral. Ainda assim, persiste o grande questionamento sobre o lado ético, avultando a impressão de que, cinicamente, a sociedade norte-americana deu aval à tese de que os fins justificam os meios, uma teoria, no mínimo, alarmante.
As urnas norte-americanas sepultaram aquele antigo conceito romano segundo o qual o homem público não apenas tem de ser honesto, mas também precisa parecer honesto. Pelo que se depreende do episódio, as coisas agora são diferentes: desde que o povo esteja bem, o governante pode, em sua vida privada, fazer o que lhe convier. Sob um aspecto, a impressão é a de que isto está certo: afinal, o que qualquer povo quer é, apenas, condições para ter uma vida digna, o que inclui trabalho, saúde, educação, segurança. Se o governo pelo menos não atrapalha, já faz muito. Entretanto, além de muitos outros fatores, existe um perigo maior: por vezes, a maioria que vive bem, pode estar se beneficiando do sofrimento da minoria. E quando falta a ética e a moral, este sofrimento pode se traduzir em perseguição política, em abuso. É inegável, por exemplo, que a grande maioria dos alemães, nos anos em que Hitler provocou a mudança que produziu condições para que o país voltasse a ser uma forte potência, apoiou o governo nazista, sem sequer saber (ou se preocupar) das atrocidades cometidas contra as minorias - judeus, ciganos e quase todos os outros povos eslavos. Vale lembrar, inclusive, que Hitler atingiu o poder máximo na Alemanha pelo voto.
A situação norte-americana é peculiar e as denúncias contra o presidente daquele país parecem algo rançosas sob o ponto de vista da grande liberação moral da atualidade. Naturalmente, a moral é relativa: o que era imoral no começo do século, hoje é aceito. Todavia, persiste a indagação sobre até que ponto se pode aceitar o comportamento inadequado de um dirigente mesmo que sua administração esteja satisfazendo a maioria.





