Editorial - Ética e disciplina
Ética e disciplina
À primeira vista, o anúncio sobre a exoneração do comandante da Aeronáutica, brigadeiro Walter Werner Brauer, e de Solange Antunes, assessora do ministro da Defesa, Élcio Álvares, ambas determinadas diretamente pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, parece contraditório. Afinal, Solange Antunes, que assessora o ministro há longo tempo, foi apenas citada em uma investigação da CPI do Narcotráfico. Já o brigadeiro emitiu opinião sobre o assunto, dando uma opinião pessoal e ponderada sobre a situação da assessora, afirmando entender que a simples dúvida suscitada sobre as atitudes de dona Solange representava fator a determinar seu afastamento.
Em verdade, o comandante da Aeronáutica tem razão. Ao afirmar que pessoas públicas precisam ter conduta ilibada ele apenas rememorou conceitos aceitos no campo da ética política, desde o tempo de Roma. Vale sempre lembrar o famoso conceito romano segundo o qual a mulher de César não só tem de ser honesta, mas também precisa parecer honesta. Esta é a idéia: a pessoa investida em cargo público tem de estar acima de qualquer suspeita. Quando, como no caso de dona Solange, seu nome aparece em uma investigação séria e complexa, como esta da CPI do Narcotráfico, surge uma nódoa que não pode ser posta de lado. Com efeito, estariam certos os que diriam que se trata de uma punição excessiva porque dá a idéia de um prejulgamento. E qualquer pessoa, em uma democracia, é considerada inocente até que se prove sua culpa.
Entretanto, há a parte ética. Como assessora de um ministro, a sra. Solange Antunes tem uma posição delicada. No momento em que surgiu a suspeita, ela própria deveria ter se afastado, inclusive para preservar a imagem de seu superior. Este modo de proceder teria evitado os constrangimentos subsequentes, os comentários como os do brigadeiro Brauer, as manchetes jornalísticas. Este deveria ser, aliás, o comportamento de qualquer pessoa investida em função pública, aí incluídos senadores ou deputados sobre os quais recaem suspeitas, bem como governadores, prefeitos, ministros, enfim todos quantos representam de algum modo a ação governamental. Não havendo percebido o óbvio, a assessora do ministro acabou passível do afastamento, que não é um julgamento sobre a questão envolvida pelo narcotráfico, mas representa mesmo o esforço para a preservação da ética na política.
Quanto ao brigadeiro Brauer, sua situação pode ser reportada ao Evangelho, quando se afirma que o escândalo é necessário, mas ai de quem vier. O brigadeiro deu uma opinião lógica e correta diante de uma situação clara. Todavia, em face de sua posição, ele também um homem investido em função pública, sujeito, até por ser membro das Forças Armadas, a normas sobre respeito à hierarquia, a crítica feita cria uma situação incômoda. Torna-se passível da punição que é natural, ainda que possa ser considerada excessiva. Paga o preço de tentar ser coerente e honesto e de haver expendido ponderação que qualquer brasileiro endossaria. Vale, porém, perceber que esta exoneração não o diminui. Seguramente, no momento mesmo em que fez o comentário, deveria ter consciência das consequências. Sai do cargo, mas permanece na Aeronáutica, seguramente com um conceito de ética que poderá, no futuro, devolvê-lo ao posto perdido ou até levá-lo a outros cargos.
Preserva-se a disciplina, com a saída do brigadeiro, e a ética, com o afastamento de dona Solange. E, fundamentalmente, dá-se força a um trabalho de moralização que é básico para a vida pública, necessário para que possa prevalecer a confiança vital do povo nos que o governam.





