Editorial - Esporte que une
Pela primeira vez desde 1980, quando ocorreu o rompimento diplomático entre os dois países, o governo norte-americano anunciou, primeiro pela Secretaria de Estado e em seguida pelo próprio presidente, a disposição de normalizar as relações com o Irã. Para tornar a coisa ainda mais incrível, o governo iraniano aceitou a oferta, considerando-a interessante, destacando apenas que esperava propostas concretas para melhor avaliar a questão. A notícia relativa ao assunto foi, inclusive, apresentada pela TV iraniana, que é totalmente controlada pelo Estado. A surpresa é ainda maior porque, aparentemente, não existem fatos novos capazes de propiciar uma virada tão grande no relacionamento de dois países que, desde a revolução do Aiatolá Khomeini, se tornaram inimigos aparentemente irreconciliáveis. A crise atingiu o auge quando os revolucionários transformaram em reféns os ocupantes da embaixada dos EUA em Teerã, episódio que durou 744 dias e só terminou em 1981.
Há, porém, um fato que pode ter sido o deflagrador desta verdadeira guinada. É a Copa do Mundo de Futebol, que se realiza na França. Hoje, em sequência ao certame, estarão jogando entre si as equipes dos Estados Unidos e do Irã, partida que, desde que foi definida no sorteio realizado há meses, vem sendo esperada com natural preocupação. O conflito entre os dois países dá a idéia de que qualquer coisa envolvendo a ambos pode gerar uma situação insustentável. Houve até quem acreditasse (como já ocorreu no passado em outros esportes), que uma das duas seleções poderia se negar a jogar. E, de repente, nem só o jogo de futebol não parece ameaçado como surge uma esperança de melhoria nas relações entre Estados Unidos e Irã.
Esta é, sem dúvida, uma das funções do esporte, aproximar os povos. Infelizmente, porém, não é o que ocorre com frequência. Com efeito, o contrário parece o mais comum. Vale lembrar, por exemplo, a guerra do futebol, entre Honduras e El Salvador. As seleções de ambos os países disputavam vaga em uma das eliminatórias para o mundial. O jogo degenerou em conflito que acabou se tornando uma verdadeira guerra entre os dois países. Menos grave foi o que aconteceu em um mundial de basquete, em 68: a seleção da União Soviética abandonou o certame porque o cruzamento determinava uma partida contra a da China Nacionalista. Os soviéticos não reconheciam aquele país e deixaram o certame (o que beneficiou o Brasil, campeão mundial naquela oportunidade). Houve também os episódios dos boicotes às Olimpíadas, primeiro contra a que se realizou em Moscou, depois em relação à de Los Angeles. Isto sem falar do uso que alguns regimes totalitários fazem do esporte, tentando mostrar uma superioridade (muitas vezes conseguida até por meios antidesportivos) sobre os demais regimes.
Toda esta parte, porém, não obscurece o lado positivo, as grandes demonstrações de união propiciadas pelo esporte, as oportunidades de povos diferentes e até irreconciliáveis politicamente de, pela prática esportiva, elevar o próprio sentido da convivência e da aproximação humanas. A presença nas últimas Olimpíadas de delegações de quase 200 países (incluindo uma representando os palestinos), foi bem indicativa desta tendência maior do esporte.
E a Copa do Mundo, promovida pela Fifa, que tem mais filiados até do que a ONU, também oferece esta oportunidade de união. Irã e Estados Unidos, inimigos ferrenhos, vão ao campo para jogar futebol. E podem até, como se observa pelos fatos, abrir um caminho que parecia impossível, reaproximando seus povos e mostrando que, com boa vontade, não há dificuldades intransponíveis.





