Editorial - Especulação ameaçadora
Especulação ameaçadora
O número de pessoas que vivem na miséria - com menos de US$ 1 por dia - poderá chegar a 1,5 bilhão até o fim do ano como resultado da crise econômica na Ásia, informa o Banco Mundial (Bird). De acordo com um relatório do banco, esse aumento da miséria mundial foi provocado, em parte, pelas exigências contidas nos pacotes internacionais de ajuda financeira destinada aos países asiáticos em dificuldades econômicas. Embora o Bird não cite o Fundo Monetário Internacional (FMI), informa que as medidas recessivas impostas por esses pacotes acabam atingindo duramente as camadas mais baixas da população. Hoje, os países que ainda recentemente acreditavam estar ganhando a luta contra a pobreza estão testemunhando a reemergência da miséria, com a fome e o sofrimento humano, assinalou no relatório o presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn.
No Leste Asiático, Indonésia, Tailândia e Coréia do Sul estão sofrendo aumentos significativos da pobreza. Apenas na Indonésia, de acordo com o relatório do Bird, a proporção da miséria cresceu 19,9% em 1998 - em 1997, ficou em 11% -, representando mais 20 milhões de pobres. A situação no Sul da Ásia é mais amena, já que alguns países estão obtendo recorde de crescimento econômico. Mas o número de miseráveis na Índia aumentou em cerca de 340 milhões, comparados com os 300 milhões na década de 80. Na África subsaariana, o crescimento econômico ficou atrás do crescimento populacional no ano passado, causando uma queda na renda média. O relatório do Bird aponta também para duros declínios no crescimento e aumento da pobreza na Rússia, Ucrânia e Romênia, e também no Oriente Médio, Norte da África e América Latina. Segundo o relatório, enquanto 1,2 bilhão de pessoas viviam com menos de US$ 1 por dia em 1987, este número aumentou para 1,3 bilhão em 1993. Levando em conta que a proporção das pessoas vivendo na pobreza permanece inalterada, esse total poderá chegar a 1,5 bilhão no começo do novo milênio.
Como a população mundial deve chegar a 6 bilhões de pessoas em outubro, conforme o Comitê de Pesquisa Populacional, sediado em Washington, isso significa, em termos percentuais, que um quarto do total de habitantes do mundo se encontra na faixa da miséria. Uma análise mais otimista poderá revelar que, apesar de tudo, houve uma certa melhora. Com efeito, ao longo da primeira metade deste século, o índice de miséria no mundo atingia 2 terços da população planetária. Entretanto, é fora de dúvida que, na véspera do terceiro milênio, com todo o avanço tecnológico, é verdadeiramente assustador perceber que persiste, e se amplia, o drama da miséria e da fome por quase todo o planeta.
Considerar esta realidade como consequência das crises econômicas que atingiram várias países nos últimos tempos é apenas apontar um efeito. A causa dessa situação está no estabelecimento de um sistema que privilegia abusos, que permite situações que ameacem países inteiros, aparentemente estáveis. É preciso ir além da responsabilização de um órgão, no caso o FMI - apesar de todas as suas culpas -, para chegar realmente ao âmago da questão e perceber que na base mesmo de toda esta instabilidade está a ação nefasta dos especuladores internacionais, verdadeiros bucaneiros do século 20, que destroem, com um pequeno movimento, economias e, por extensão, levam milhões à fome. Falta uma efetiva conscientização mundial e uma ação comum destinada a conter a ação dos especuladores que, atualmente, aumentam o universo de famintos, mas, em pouco tempo, podem provocar uma instabilidade capaz de levar o mundo à destruição.





